Um bebê de quatro meses virou símbolo de um tempo insano — tempo em que a covardia se veste de poder e a toxicidade escorre pelos corredores do Congresso Nacional. No centro da cena, uma criança. Nos bastidores, a vergonha.
Hugo Motta, presidente da Câmara, foi enfático: “Não esperem omissão ou coragem para decidir sobre qualquer tema.” Pois saiba, senhor presidente, que de Vossa Senhoria nunca esperei coragem. E tampouco me surpreende a omissão. Se o deputado Paulo Bilynskyj, após apertar o pescoço do jornalista Guga Noblat, sofrer alguma consequência, volto aqui para me retratar. Mas não guardo esperanças.

O Congresso foi sequestrado nesta semana — e a democracia, mais uma vez, amordaçada. Deputados acorrentados, bocas vedadas com fita crepe. Patético. A anistia a Jair Bolsonaro e seus cúmplices, para a extrema direita, vale mais do que o bem-estar de uma criança. Mais do que o choro frágil de um bebê.
A deputada Júlia Zanatta (PL-SC) transformou a amamentação em palanque. Levou a filha ao olho do furacão. Sentou-se na cadeira da presidência com a menina no colo, mesmo sabendo que o ambiente era inflamável. Deputados exaltados, polícia parlamentar em alerta, ameaça de spray de pimenta no ar.
É direito de toda mãe poder amamentar, sim — e deveria sê-lo em todos os espaços de trabalho. Mas é também direito de toda criança ser protegida. Ser cuidada com zelo, com instinto, com amor. Não usada como escudo. Não exposta como argumento político.
O deputado Reimont (PT-RJ), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, afirmou que acionaria o Conselho Tutelar. Para ele, o episódio “pode configurar situação de exposição indevida de uma criança a risco”. E pode mesmo. Porque foi.
Aquela menina chorou em meio à gritaria dos adultos. Chorou como choram os inocentes quando tudo ao redor perde o sentido. Não era um dia comum de trabalho. Era uma cena armada. Uma provocação calculada.
Júlia Zanatta não preservou sua filha. Usou um direito conquistado por mães que lutam por dignidade como escudo moral. Uma carta de imunidade.
É cruel. É covarde. E tudo isso — esse teatro medonho — em nome de um homem que, para parte do Congresso, segue acima da ética, da Constituição e, agora, até de um bebê.