Perícia aponta falta de documentos e indícios de inatividade em empresas do Grupo Fictor

Achados embolam caminho para recuperação judicial da empresa que tentou comprar o Master
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O pedido de recuperação judicial do Grupo Fictor, que tentou comprar o Banco Master, entrou em compasso de espera após a perícia judicial identificar fragilidades na documentação apresentada pelas empresas do grupo. O relatório técnico da Laspro Consultores, com 52 páginas, aponta que ainda não há elementos suficientes para aferir a real situação econômico-financeira do conglomerado, que declarou dívidas de R$ 4,1 bilhões.

A análise foi determinada pelo juiz Adler Batista Oliveira Nobre, da 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, antes de qualquer decisão definitiva sobre o processamento da recuperação. O magistrado condicionou o avanço do caso à verificação técnica das informações prestadas pelas empresas.

O laudo destaca a ausência de documentos considerados essenciais para a compreensão do quadro financeiro. Entre os 17 itens solicitados estão demonstrativos contábeis detalhados, projeções individualizadas de fluxo de caixa, organograma atualizado do grupo e esclarecimentos sobre a movimentação de recursos entre subsidiárias e estruturas de investimento, como as Sociedades em Conta de Participação (SCPs).

Achados da perícia

Chamou atenção dos peritos a falta de projeção de fluxo de caixa da Fictor Invest — uma das empresas que integram o pedido de recuperação. Também foram requisitadas explicações sobre a origem e o destino de bilhões de reais captados, bem como sobre a natureza de saídas relevantes de caixa.

Na petição inicial, o grupo sustenta que enfrentou uma corrida de saques superior a R$ 2 bilhões após o episódio envolvendo o Master, o que teria provocado uma crise de liquidez. A empresa argumenta ainda que determinadas subsidiárias, deixadas fora do pedido de recuperação, continuariam operacionais e teriam previsão de receber cerca de R$ 690 milhões em recursos.

A perícia, no entanto, busca confirmar se essas estimativas encontram respaldo documental.

Efeitos jurídicos imediatos

Como o pedido de recuperação ainda não foi deferido, as empresas não contam, até o momento, com a blindagem típica concedida nesses casos — como a suspensão automática de execuções e cobranças.

O advogado Vitor Gomes de Mello, que representa investidores em disputas judiciais contra o grupo, disse que a continuidade das ações de bloqueio patrimonial permanece possível enquanto não houver decisão favorável à recuperação.

O cenário amplia a pressão sobre o grupo, que depende da regularização documental para garantir a proteção judicial pretendida.

Diligências revelam dúvidas sobre operações

Além da análise contábil, a perícia realizou visitas a unidades vinculadas ao grupo em diferentes estados. Em parte dos endereços, os peritos relataram não ter encontrado sinais claros de atividade empresarial.

Em Goiás, no município de Rio Verde, a empresa Fictor Agro Comércio de Grãos não apresentava funcionários nem estrutura operacional compatível com a atividade declarada. Em Cocalzinho, no endereço atribuído à Dynamis Clima, voltada à geração solar, o local correspondia a uma pousada e a um depósito, sem identificação da companhia.

Em Goiânia, o acesso às salas da holding Dynamis foi negado à equipe técnica, impedindo a verificação in loco. No Amazonas, duas sociedades de propósito específico ligadas a projetos de energia solar também não apresentaram identificação visível ou indícios de funcionamento nos locais indicados.

No Rio de Janeiro, a perícia registrou situações semelhantes: ausência de identificação empresarial em unidade de geração de energia e rescisão contratual em outro empreendimento que, segundo a administração local, nunca integrou formalmente o grupo como subsidiária.

As constatações não configuram, por si, irregularidade definitiva, mas reforçam a necessidade de esclarecimentos adicionais sobre a estrutura operacional apresentada no pedido de recuperação.

Credibilidade e transparência em jogo

Casos de recuperação judicial que envolvem passivos bilionários exigem elevado grau de transparência e consistência documental para garantir segurança jurídica a credores e investidores. A ausência de informações-chave pode atrasar decisões e ampliar a insegurança em torno do processo.

O desfecho dependerá agora da capacidade do Grupo Fictor de atender às exigências técnicas no prazo estabelecido. Até lá, a recuperação judicial segue indefinida.

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