O termo populismo aparece com frequência no debate público. Ele é usado para descrever governos, lideranças e movimentos em diferentes países e contextos. Ao mesmo tempo, seu uso amplo acabou esvaziando o significado. Em muitos casos, virou um rótulo aplicado a adversários políticos, sem definição precisa.
Na ciência política, o conceito segue outro caminho. Em vez de tratar o populismo como um desvio ou uma anomalia, parte dos estudos o define como uma forma de organizar a política. Isso muda o ponto de partida da análise. O foco deixa de ser o julgamento moral e passa a ser o funcionamento dessa lógica, suas condições de surgimento e seus efeitos.
Neste texto, você vai entender como o populismo é definido, como ele se manifesta, quais são as diferenças entre suas variantes e como ele se conecta às tensões da democracia contemporânea.
Como a ciência política define o populismo
O populismo é uma forma de organizar a política a partir de uma divisão entre povo e elite. Essa é uma das definições mais recorrentes nos estudos sobre o tema. O conceito aparece como uma lógica política capaz de articular demandas sociais distintas em torno de um antagonismo comum.
Essa definição ajuda a entender por que o populismo pode aparecer em experiências tão diferentes. O ponto comum não está no programa político, mas na forma de construir a disputa: um “nós” contra um “eles” .
Por isso, parte da literatura rejeita a ideia de que o populismo seja uma ideologia fechada. Ele funciona mais como uma forma política, que pode ser preenchida por conteúdos de direita ou de esquerda.
Por que o termo populismo virou rótulo político?
O uso amplo do termo populismo criou uma dificuldade. Em vez de explicar fenômenos políticos, muitas vezes ele serve apenas para acusar adversários. Esse problema aparece com frequência na América Latina, onde o populismo foi associado tanto à ampliação de direitos quanto à concentração de poder.
Na tradição latino-americana, governos chamados de populistas ampliaram a participação de trabalhadores, criaram direitos sociais e reorganizaram o papel do Estado. Ao mesmo tempo, também criaram formas de controle político e limitaram a autonomia de organizações sociais.
Essa ambiguidade é parte do debate. O populismo pode abrir espaço para grupos antes excluídos, mas também pode concentrar representação em uma liderança que afirma falar pelo povo inteiro.
O populismo e a construção do “povo”
Na teoria de Ernesto Laclau, um dos principais pensadores pós-marxistas, o “povo” não existe pronto. Ele é construído politicamente quando diferentes demandas passam a se reconhecer em uma mesma disputa. Trabalhadores, movimentos sociais, grupos racializados e outros setores podem formar uma cadeia de equivalências quando identificam um bloqueio comum.
Esse processo depende de símbolos capazes de reunir demandas distintas. A teoria de Laclau chama isso de “significante vazio”: uma palavra, uma causa ou uma liderança que passa a representar muito mais do que seu sentido inicial.
Esse ponto é importante porque mostra que o populismo organiza identidades políticas. Ao dizer quem é o povo e quem impede sua realização, ele produz pertencimento e conflito.
Por que populismo de esquerda e direita partem da mesma lógica, mas levam a projetos políticos distintos
Populismo de direita e populismo de esquerda compartilham a oposição entre povo e elite, mas constroem essa oposição de formas diferentes.
No populismo de direita, o povo costuma ser apresentado como uma comunidade homogênea, definida por critérios nacionais, culturais ou morais. Além da elite, surge um segundo inimigo: imigrantes, minorias, movimentos progressistas ou grupos apresentados como ameaça à ordem social.
No populismo de esquerda, o povo tende a ser articulado a partir de demandas de igualdade, trabalho, redistribuição e reconhecimento. A divisão principal costuma opor setores populares a oligarquias, elites econômicas ou estruturas de poder .
Essa diferença muda o efeito político. O populismo de direita tende a restringir o pertencimento. O de esquerda busca ampliar o campo de inclusão, embora também enfrente tensões quando depende de lideranças concentradoras .
Como crises econômicas e institucionais impulsionam o crescimento do populismo de direita no mundo
O populismo de direita ganhou força em vários países a partir de crises econômicas, insegurança social e descrédito institucional. Na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, ele aparece associado ao nacionalismo, à restrição à imigração, ao ressentimento contra elites políticas e à crítica à globalização.
Esse movimento não forma um bloco único. Há diferenças entre Trump, Milei, Bolsonaro e outros líderes. Ainda assim, há padrões comuns: discurso anti-elite, apelo ao povo comum, ataques a minorias e uso estratégico da comunicação política.
Na América Latina, a ascensão da extrema direita se conecta a crises econômicas, desgaste da política tradicional, insegurança pública e disputas sobre democracia, direitos e soberania.
Leia mais em: O avanço da extrema direita nos países latinos
Como as redes sociais e dados ampliaram a comunicação populista baseada em emoção e polarização
O populismo contemporâneo depende da comunicação. O populismo de direita opera como ideologia, discurso, estilo e estratégia. A simplificação, a emocionalidade e a negatividade são marcas frequentes desse tipo de comunicação.
As redes sociais ampliam esse processo. A lógica algorítmica favorece mensagens curtas, polarizadas e emocionalmente carregadas. O medo, a raiva e o ressentimento são potencializados através de dados, segmentações e mensagens personalizadas.
Nesse ambiente, o populismo ganha velocidade. Ele não precisa apresentar um programa detalhado para todos os temas. Muitas vezes, basta oferecer uma narrativa simples para problemas complexos: o povo foi traído, a elite bloqueia sua vontade e um líder pode restaurar a ordem.
Como o populismo de direita transforma adversários políticos em inimigos por meio de uma linguagem de confronto
O populismo de direita também se manifesta pela linguagem da guerra. O fenômeno é uma política marcada por muros, trincheiras simbólicas, segurança pública e desprezo por formas coletivas de ação democrática.
Essa linguagem transforma adversários em inimigos. A política deixa de ser disputa entre projetos e passa a ser apresentada como confronto moral. Nesse registro, o oponente não erra apenas em suas propostas. Ele passa a ser tratado como ameaça à nação, à família, à religião ou à ordem.
Essa lógica ajuda a explicar por que temas como criminalidade, costumes e segurança ganham tanto peso em campanhas populistas de direita.
Populismo penal e o debate sobre segurança pública
No Brasil, o populismo penal ocupa lugar relevante. Ele usa o medo do crime como forma de mobilização política e desloca o debate sobre segurança para soluções punitivas.
Essa abordagem constrói a figura do criminoso como inimigo social. O problema é que, em um país marcado por desigualdade racial e de classe, essa construção não recai de forma neutra sobre a população. Ela tende a reforçar a associação entre pobreza, racialidade e criminalidade.
O populismo penal, portanto, não é apenas uma posição sobre segurança. Mas organiza afetos políticos, desloca frustrações sociais e produz um alvo.
Veja mais: Para que serve o populismo penal?
Bolsonarismo e o populismo de direita no Brasil

O bolsonarismo articulou elementos clássicos do populismo de direita: discurso antissistema, defesa da ordem, moralismo, ataque à esquerda e confronto com instituições. Uma combinação entre autoritarismo político, conservadorismo social e neoliberalismo econômico.
Essa combinação ajudou a formar uma identidade política em torno de segurança, família, anticorrupção, antipetismo e rejeição ao sistema político. Ao mesmo tempo, seu governo aplicou uma agenda econômica voltada à redução do papel social do Estado.
Por que lideranças populistas tensionam o Judiciário ao disputar quem fala em nome do povo
O confronto com o Judiciário é uma das manifestações mais visíveis do populismo de direita. No caso de Trump e Bolsonaro, ataques a cortes superiores foram usados para apresentar juízes como obstáculos à vontade popular.
Essa estratégia parte de uma tensão real da democracia: juízes não são eleitos pelo voto popular, mas têm a função de limitar abusos de poder e proteger direitos. O discurso populista transforma essa função em sinal de ilegitimidade.
O resultado é uma disputa sobre quem pode falar em nome do povo. Quando uma liderança reivindica essa representação de forma exclusiva, qualquer instituição de controle passa a ser tratada como inimiga.
A precarização do trabalho ajuda a explicar a base social do populismo de direita
O crescimento da extrema direita não pode ser separado das transformações no trabalho. A precarização, o enfraquecimento da proteção social e a perda de vínculos coletivos criam terreno para discursos que prometem ordem e pertencimento.
Em entrevista ao jornalista Chico Alves, do ICL Notícias, o pesquisador e cientista político Thomás Zicman de Barros relaciona o avanço da extrema direita na Europa ao enfraquecimento dos sistemas de proteção social e à precarização do trabalho. Segundo essa análise, a extrema direita desloca a causa do sofrimento social para imigrantes e outros grupos convertidos em ameaça.
Esse ponto ajuda a entender por que o populismo de direita se alimenta de inseguranças concretas, oferecendo respostas que preservam ou aprofundam desigualdades.
O populismo à esquerda, segundo Chantal Mouffe
A esquerda não deve abandonar o campo do populismo para a direita, é o que defende a cientista política belga Chantal Mouffe. Sua proposta parte da ideia de que a política envolve conflito, afetos e construção de identidades coletivas.
Mouffe critica a visão de que o populismo seja uma doutrina única e necessariamente antidemocrática. Para ela, existem diferentes populismos, e o sentido democrático ou autoritário depende de como se constrói a fronteira entre “nós” e “eles”.
Essa discussão é relevante porque mostra que o problema não está apenas na presença do conflito. A questão é quem é incluído no “povo”, quem é transformado em inimigo e quais instituições são preservadas ou atacadas.

O caso de López Obrador, ex-presidente do México (2018-2024) mostra como o populismo de esquerda pode ocupar temas morais frequentemente mobilizados pela direita, como combate à corrupção, soberania e valorização do cidadão comum.
Obrador chegou à presidência do México em 2018 com um discurso centrado no combate à corrupção, tratado como origem dos principais problemas do país. Em vez de partir de propostas técnicas, organizou sua comunicação a partir da oposição entre o povo e uma elite política e econômica que chamou de “máfia do poder”.
No governo, combinou essa narrativa com políticas de aumento do salário mínimo, transferência de renda e ampliação de programas sociais, mantendo comunicação direta e frequente com a população. Esse arranjo ajudou a sustentar apoio popular mesmo em confronto com setores empresariais e institucionais, mostrando como a mobilização política pode se estruturar também a partir de símbolos e identificação coletiva.
Essa estratégia permitiu disputar a identificação popular sem abandonar uma agenda de reformas sociais. O caso mexicano também evidencia uma tensão: reformas estruturais em sociedades desiguais costumam gerar conflito com elites econômicas e políticas.
A experiência mexicana não elimina os riscos do personalismo, mas mostra que a mobilização emocional não pertence apenas à direita. Ela pode ser usada para sustentar agendas de redistribuição e ampliação de direitos.
Populismo e democracia: ameaça ou sintoma?
O populismo mantém uma relação tensa com a democracia. Ele pode ampliar a participação política quando incorpora grupos ignorados pelas instituições. Mas também pode reduzir o espaço de mediação institucional quando concentra representação em uma liderança e intensifica a divisão entre campos políticos.
No Brasil, um estudo premiado pela CAPES em 2024, desenvolvido pelo cientista político Gustavo Venturelli, analisou os discursos presidenciais de Fernando Collor, Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro desde 1988. A pesquisa mostrou que Bolsonaro foi o presidente que mais utilizou elementos de linguagem populista, seguido por Collor e, em menor grau, Lula.
O mesmo estudo utiliza métodos de inferência causal para avaliar o impacto político desse discurso e indica que a deterioração da qualidade democrática no país não começa em 2018. Os dados apontam para um processo anterior, com destaque para o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 como fator relevante nesse movimento.
Esse recorte altera a forma de interpretar o fenômeno. O populismo pode intensificar conflitos institucionais, mas também aparece em cenários onde a própria democracia já enfrenta dificuldades para responder a demandas sociais e políticas.
Por que a centralidade do líder no populismo pode reduzir o papel das instituições políticas?
A teoria de Laclau oferece instrumentos para entender como as demandas se articulam e como se constrói o povo. Ao mesmo tempo, há críticas importantes. Uma delas aponta que a centralidade do líder pode deixar pouco espaço para mediações institucionais, partidos e formas permanentes de participação.
Esse problema é decisivo. Se o líder passa a ocupar o lugar do povo, a pluralidade interna das demandas pode ser reduzida. A cadeia de equivalências, que inicialmente articula diferenças, pode virar um bloco disciplinado em torno de uma única voz .
Essa tensão explica por que o populismo pode se aproximar tanto da mobilização democrática quanto do autoritarismo.
O que o crescimento do populismo revela sobre os limites da representação política?
O populismo revela uma crise de representação. Ele cresce quando partidos, instituições e elites perdem a capacidade de organizar demandas sociais. Também cresce quando a política passa a ser apresentada como gestão técnica, sem disputa real sobre projetos de sociedade.
Na América Latina, na Europa e nos Estados Unidos, o populismo contemporâneo aparece em contextos de desigualdade, precarização, crise institucional e transformação tecnológica. Ele não é um acidente fora da democracia, e sim surge dentro de suas falhas.
A pergunta central, portanto, não é apenas se uma liderança é populista. É necessário observar que tipo de povo ela constrói, quem ela transforma em inimigo, como lida com instituições e quais direitos amplia ou restringe.
O povo no centro da disputa democrática
O populismo segue no centro da política porque toca em uma questão que as democracias ainda não resolveram: quem representa o povo quando as instituições deixam de responder às suas demandas?
A resposta pode seguir caminhos diferentes. Pode ampliar participação, articular demandas sociais e abrir espaço para novos sujeitos políticos. Também pode restringir o pluralismo, atacar instituições e transformar desigualdades em combustível para projetos autoritários.
O conceito de populismo ajuda a entender esse impasse. Ele mostra que a democracia não vive apenas de regras, mas também de conflito, pertencimento e disputa sobre o sentido de povo. O desafio está em reconhecer essa disputa sem permitir que ela seja usada para reduzir direitos, silenciar diferenças ou concentrar poder.