De ilha privada a Taylor Swift: as regalias citadas pela PF a Jaques Wagner

Documentos da 9ª fase da Operação Compliance Zero citam uso de aeronaves particulares, ingressos para show em Los Angeles e presentes de alto valor atribuídos pela PF ao entorno do senador
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Por Cleber Lourenço

A 9ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal com autorização do ministro André Mendonça, do STF, trouxe novos detalhes sobre a relação entre o senador Jaques Wagner (PT-BA) e Augusto Ferreira Lima, apontado pelos investigadores como um dos operadores ligados ao Banco Master. Entre os elementos reunidos pela PF estão registros de deslocamentos em aeronaves privadas, ingressos para camarotes em shows internacionais e a circulação de presentes considerados de elevado valor.

Embora a investigação tenha como foco principal a suposta entrega de vantagens indevidas por meio da aquisição de um apartamento de luxo em Salvador, repasses financeiros para empresas ligadas ao núcleo familiar do parlamentar e sua atuação em temas de interesse do Banco Master, os investigadores utilizaram episódios envolvendo viagens e benefícios pessoais para demonstrar o grau de proximidade entre Wagner e Augusto Ferreira Lima.

Segundo a decisão, a PF encontrou mensagens trocadas entre Wagner e Augusto Ferreira Lima entre os dias 11 e 13 de outubro de 2023 relacionadas a um encontro na chamada “Ilha da Paixão”, descrita nos autos como propriedade do banqueiro.

De acordo com a investigação, Augusto colocou uma aeronave particular à disposição do senador e de familiares para o deslocamento entre Salvador e a ilha. A decisão registra que o operador teria enviado ao parlamentar o prefixo da aeronave e o horário do voo.

Para os investigadores, o episódio é um dos exemplos da relação de confiança existente entre os dois.

A PF afirma ainda que a disponibilização de aeronaves não teria sido um fato isolado.

Em outro episódio citado nos autos, Wagner teria solicitado a Augusto o contato de um piloto para um deslocamento ao Rio de Janeiro. A decisão relata que, em abril de 2024, após uma chamada de voz, Augusto encaminhou ao senador o contato identificado como “Breno Copiloto Banco” e, em seguida, repassou ao piloto o telefone de Wagner.

Os investigadores sustentam que essas interações reforçam a existência de uma relação que ultrapassaria contatos ocasionais.

Brasília (DF) 20/08/2024 Senado durante sessão plenária semipresencial para votar o projeto de lei (PL 1.847/2024) que estabelece a reoneração gradual da folha de pagamento de 17 setores da economia. (Relator senador Jaques Wagner) Foto Lula Marques/ Agência Brasil
Senador Jaques Wagner. (Foto: Lula Marques/ Agência Brasil)

Camarote em Los Angeles

Outro trecho da decisão trata de ingressos para um show realizado em Los Angeles, nos Estados Unidos. Segundo a PF, em junho de 2023 Augusto Ferreira Lima orientou sua secretária a providenciar ingressos destinados a familiares de Wagner. Conforme informou a colunista Malu Gaspar, de O Globo, o evento era um show da cantora Taylor Swift.

A compra, de acordo com os documentos analisados pelos investigadores, teria sido realizada pela REAG Investimentos S.A. e custado R$ 63,3 mil.

Os autos registram ainda que, em 23 de novembro de 2023, Wagner procurou Augusto para questionar sobre os “ingressos de sábado”, referentes a um evento marcado para o dia 25 daquele mês. De acordo com a decisão, Augusto enviou ao senador os arquivos dos ingressos para camarote.

Na sequência, Wagner teria solicitado a ampliação do número de entradas para cinco pessoas. A resposta atribuída a Augusto foi reproduzida na decisão:

“Pronto amigo. Seguem os outros dois. Abs.”

Para a Polícia Federal, o episódio integra o conjunto de vantagens que teriam sido disponibilizadas ao parlamentar e seus familiares.

Presentes e agrados

As decisões também fazem referência ao trânsito de presentes entre pessoas ligadas aos dois núcleos investigados.

Em um dos trechos, a PF relata que uma secretária vinculada à empresa Terra Firme da Bahia Ltda., apontada como ligada a Augusto Ferreira Lima, encaminhou fotografias de embalagens de empório acompanhadas de bilhetes manuscritos destinados a Jaques Wagner e a Guilherme Henrique Sodré Martins, homem de confiança do senador.

Segundo os investigadores, os registros seriam indícios da circulação de presentes considerados de elevado valor entre os envolvidos.

Investigação mira apartamento, repasses e atuação parlamentar

Apesar de destacar voos privados, ingressos internacionais e presentes, a própria decisão ressalta que os elementos centrais da investigação estão concentrados em outros eixos.

A PF apura a suposta aquisição do apartamento nº 1702 do empreendimento Poème Horto, em Salvador, que teria sido viabilizada por estruturas ligadas ao grupo investigado, além de pagamentos destinados à BN Financeira, empresa associada ao núcleo familiar de Wagner.

Os investigadores também apontam indícios de atuação do senador em pautas consideradas estratégicas para interesses do Banco Master, incluindo temas relacionados ao crédito consignado, ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e às discussões envolvendo a tentativa de aquisição do banco pelo BRB.

A reportagem procurou a assessoria do senador Jaques Wagner e aguarda manifestação. O espaço permanece aberto para inclusão de eventual posicionamento.

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