Por Iago Filgueiras
A história política brasileira é marcada por disputas entre projetos de país. Ao longo dos séculos, correntes políticas distintas ocuparam lugares opostos no tabuleiro do poder: republicanos versus monarquistas, reformistas versus conservadores, tucanos versus petistas. Nos últimos anos, porém, esse cenário passou por uma transformação. Em vez de apenas ampliar a polarização, o debate público abriu espaço para um fenômeno mais profundo: a radicalização política.
Com redes sociais consolidadas como parte do cotidiano, informações circulando a todo momento e celulares nos bolsos de muita gente, a radicalização encontrou um ambiente fértil para crescer. Agora, entre dois sujeitos não existe apenas diferença de opinião. A discordância dá lugar à repulsa, ao ódio e à intolerância.
Neste artigo, você vai entender como funciona a radicalização política, por que ela cresce em períodos de instabilidade social e de que forma a extrema direita converte o ódio em uma estratégia capaz de mobilizar apoiadores, gerar lucro e fortalecer projetos de poder.
O que é radicalização política?
A radicalização política é um processo em que indivíduos ou grupos passam a adotar posições cada vez mais extremas, enxergando adversários não como pessoas com opiniões diferentes, mas como inimigos que representam uma ameaça e, por isso, devem ser combatidos. Em seu estágio mais avançado, esse processo pode naturalizar discursos de ódio, desinformação e até a violência como formas legítimas de ação política.
No Brasil, frequentemente ouvimos sobre a polarização que assola a sociedade. E, de fato, as correntes políticas que têm ganhado projeção nos últimos anos ocupam posições bastante distintas no espectro ideológico. Mas há algo além da simples divergência de ideias. Emoções como medo, indignação e ressentimento passaram a ser mobilizadas de forma sistemática. Com isso, a polarização deixou de expressar apenas visões de mundo diferentes e evoluiu para uma lógica em que o outro é um inimigo a ser derrotado.
Esse fenômeno tem sido observado não só no Brasil, mas em diversas partes do mundo. O que chama a atenção é que ele ocorre em um momento de ascensão da extrema direita global, fortemente marcada por um discurso que busca construir inimigos como forma de congregar apoiadores e, esses inimigos, costumam ser muitos: imigrantes, pessoas LGBTQIA+, mulheres que se recusam a performar um papel de gênero imposto por uma cultura machista e o já famoso “fantasma do comunismo”.
Por que a radicalização cresce em momentos de crise?
Para entender como o ódio é capaz de mobilizar tanta gente, é preciso compreender as razões que permitem que esse processo aconteça. Na aula A Semente do Caos, disponível no ICL, o historiador e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), João Cezar de Castro Rocha sustenta que isso é um produto característico de momentos de crise social em que o sentimento de perda e frustração é explorado.
Para ele, observando outros momentos históricos que foram marcados pela ascensão de ideologias totalitárias de extrema direita, há paralelos que sustentam essa visão. O historiador argumenta que, em momentos de crise do capitalismo, a resposta sempre foi “o endurecimento político e uma tendência ao desenvolvimento de governos nazifascistas”. Como nos casos a seguir:
- Crise econômica de 1929: a grande recessão, como ficou conhecida a mais longa crise econômica do capitalismo, permitiu o fortalecimento das bases que levaram figuras como Hitler, na Alemanha, e Mussolini, na Itália, ao poder
- Choque do petróleo na década de 1970: as crises econômicas motivadas pelo aumento do preço do petróleo no mercado global na década de 1970 levaram a adoção de medidas neoliberais de gestão financeira, como nos governos de Margaret Thatcher, no Reino Unido, e Ronald Reagan, nos Estados Unidos
- Crise econômica de 2008: produziu uma multidão legitimamente ressentida contra um sistema que salvou as elites financeiras com trilhões de dólares enquanto os mais pobres perdiam suas casas e direitos.
Quando o ressentimento vira movimento político
Quando respostas complexas parecem insuficientes, cresce o apelo de lideranças que oferecem explicações fáceis e culpados bem definidos. É nesse contexto que a guerra cultural ganha força. Em vez de direcionar a insatisfação para problemas estruturais, a radicalização aponta inimigos internos como responsáveis pela suposta decadência da sociedade.
Um dos discursos utilizados para mobilizar os apoiadores é o do anticomunismo. No entanto, Castro Rocha observa que, após o fim da Guerra Fria, a extrema direita precisou reinventar essa ideia. Sem a União Soviética como antagonista, essa lógica foi adaptada para novos contextos e transformada em uma ferramenta capaz de unificar apoiadores em torno de um inimigo comum. Mais do que uma posição ideológica, essa narrativa oferece pertencimento a quem sente que perdeu espaço ou identidade em um mundo em rápida transformação.
É o ressentimento desses grupos vulneráveis que passa a ser capturado por líderes de extrema direita que se posicionam como outsiders e figuras antissistema, como Donald Trump, Viktor Orbán, Javier Milei, Nayib Bukele e Jair Bolsonaro, que surfaram na onda do descontentamento para chegar ao poder através de vitórias eleitorais, e não de golpes.
Confira um trecho da aula A Semente do Caos:
Como a extrema direita transformou o ódio em modelo de negócio?
Analisando o discurso da extrema direita, é possível identificar que o ódio é mobilizado como uma ferramenta agregadora. Ou seja, a união acontece pela raiva compartilhada contra um determinado grupo — ou grupos. Na prática, a radicalização é uma parte inseparável desse tipo de ideologia e o que legitima a violência contra o outro.
Mas o rancor, o ressentimento e a repulsa ocupam um papel que vai além da estratégia política: geram dinheiro. Quanto maior a indignação, maior a circulação de conteúdos. Quanto maior a circulação de conteúdos, maior o engajamento. E, em um ambiente digital em que atenção é um ativo valioso, engajamento é fonte de lucro.
É por isso que discursos que incentivam o pânico moral surgem todos os dias: o kit gay, a mamadeira erótica, a negação da ditadura civil-militar e até mesmo o debate em torno de qual pé o chinelo deve ser calçado — no da direita ou no da esquerda. Tudo isso faz parte de uma dinâmica que mantém apoiadores mobilizados, fortalece um senso de comunidade e abre espaço para diversas formas de monetização: do valor pago para veiculação de anúncios online aos pedidos de doações para fortalecer uma causa.
Veja mais: Direita vê ideologia em Havaianas e transforma chinelo em guerra cultural
Quando apoiadores viram consumidores
É nesse momento que apoiadores deixam de ser apenas eleitores e passam a formar um mercado consumidor. Quanto mais tempo permanecem engajados, maior a probabilidade de comprar livros e cursos, assinar comunidades exclusivas, consumir produtos associados àquela identidade política e responder a campanhas de arrecadação.
Os pedidos de doação feitos por Donald Trump e Jair Bolsonaro ajudam a ilustrar essa dinâmica. Após perder a eleição presidencial de 2020, Trump mobilizou seus apoiadores para financiar ações judiciais baseadas na alegação de fraude eleitoral e arrecadou mais de US$ 200 milhões. No Brasil, depois da derrota nas eleições de 2022, Bolsonaro também recorreu à sua base para custear multas e despesas com advogados. Segundo a Polícia Federal, entre março de 2023 e junho de 2025, a campanha arrecadou R$ 44,3 milhões.
Mas as campanhas de arrecadação representam apenas uma das formas de transformar capital político em receita. À medida que essas comunidades se consolidam, surgem novos mecanismos de monetização que dependem menos do convencimento de novos eleitores e mais da fidelização de uma base disposta a consumir qualquer produto associado àquela identidade política.

Da militância ao investimento
Essa lógica chegou até mesmo ao mercado financeiro. Nos últimos anos, lideranças de extrema direita passaram a explorar ativos digitais como forma de converter capital político em capital econômico. Essa atuação ocorre em duas frentes: o uso de criptomoedas tradicionais e a criação de memecoins.
As memecoins são ativos digitais criados, muitas vezes, como piada ou símbolo cultural e, diferentemente de moedas consolidadas como o Bitcoin — que possuem infraestrutura tecnológica robusta e mercados globais de liquidez —, não têm valor financeiro intrínseco ou fundamentos econômicos.
Ao lançar ou apoiar ativos desse tipo vinculados à própria imagem, essas lideranças transformam seguidores em investidores informais. Quanto maior o barulho nas redes, maior a expectativa de valorização. Nesse modelo, militância, pura especulação financeira e identidade política passam a caminhar juntas.
Mas além das moedas de engajamento, a extrema direita também passou a operar com criptomoedas reais do mercado financeiro para capturar recursos. Quando ocupando cargos políticos, líderes extremistas têm demonstrado uma relação de proximidade com esse tipo de investimento que levanta suspeitas sobre uso do cargo para obtenção de vantagens econômicas.
Em 2025, Javier Milei, presidente argentino de extrema direita, divulgou a criptomoeda $LIBRA. Como consequência, o valor do ativo disparou, mas pouco tempo depois caiu bruscamente, deixando milhares de investidores no prejuízo e, alguns poucos, com lucro. No mesmo ano, relatórios divulgados nos EUA mostraram que Donald Trump se tornou o presidente estadunidense que mais lucrou durante o mandado. O que chama atenção é que os ganhos foram fortemente influenciados por investimentos em criptomoedas.

Do lacre ao lucro
Entre grupos que se posicionam contra o avanço de pautas progressistas, um bordão costuma ser repetido à exaustão: “quem lacra, não lucra”. Basta que uma propaganda mostre um casal homoafetivo, uma campanha publicitária aborde diversidade ou uma mulher apareça em um papel que desafie padrões tradicionais para que perfis ligados à extrema direita proponham boicotes às marcas. A ironia é que a própria extrema direita encontrou no “lacre” um dos seus modelos de negócio mais rentáveis.
O primeiro passo é produzir uma nova guerra cultural. Quanto mais banal for o tema, melhor. Um comercial de televisão, um livro didático, uma exposição de museu ou até um par de chinelos podem ser transformados em símbolos de uma disputa entre “nós” e “eles”. O objetivo não é discutir o assunto em si, mas manter a sensação permanente de conflito.
Essa estratégia dialoga diretamente com a lógica da economia da atenção. Plataformas digitais priorizam conteúdos capazes de provocar reações intensas e, por isso, indignação, medo e revolta costumam circular mais do que explicações complexas ou debates equilibrados. Cada compartilhamento amplia o alcance da mensagem, fortalece o senso de pertencimento da comunidade e prepara o terreno para a próxima controvérsia.
É esse ciclo que sustenta todo o modelo de negócios. A comunidade permanece mobilizada porque novas guerras culturais são produzidas continuamente, e essas guerras continuam sendo produzidas porque mantêm uma audiência fiel, engajada e disposta a financiar seus principais porta-vozes. A radicalização, portanto, não é apenas o discurso vendido por essas lideranças. Ela é o produto que torna esse mercado possível.
Do discurso de ódio à violência nas ruas
Para além do lucro financeiro que se alimenta da radicalização e do ódio semeado em discursos políticos mundo afora, há uma outra camada: a violência extrapola o campo da comunicação e legitima ações. Na aula Bolsonarismo: dissonância cognitiva coletiva e retórica do ódio, disponível no ICL, Castro Rocha afirma que “o discurso de ódio não se limita à linguagem, ele é a antessala, a véspera, da violência física”.
Nos últimos anos, a conexão entre discursos exaltados em comícios repletos de apoiadores e ações violentas que tomam as ruas do país têm provado que o ódio se estende para além da camada retórica.
Em 2018, o capoeirista Romualdo Rosário da Costa, conhecido como mestre Moa do Katendê, acabou envolvido em uma discussão em um bar de Salvador com o barbeiro Paulo Sérgio Ferreira de Santana. A briga ocorreu dois dias após as eleições que resultaram na vitória do candidato de extrema direita Jair Bolsonaro. O resultado da discussão? Depois de ter declarado voto em Fernando Haddad, candidato do Partido dos Trabalhadores naquele pleito, mestre Moa foi assassinado com 12 facadas nas costas.
No Paraná, quase quatro anos após o episódio, em 2022, o guarda municipal Marcelo Aloizio Arruda decidiu comemorar sua festa de aniversário com a temática do Partido dos Trabalhadores e da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, candidato da sigla às eleições que seriam realizadas naquele ano. Durante a comemoração, o policial penal Jorge José da Rocha Guaranho invadiu o local armado aos gritos de “Aqui é Bolsonaro”, atirou e matou Marcelo Arruda.

Esses episódios, mesmo que soem extremos, revelam a prática de um espectro político que mobiliza o ódio e a construção de um inimigo em seus discursos. Mas existe um outro evento muito simbólico que ajuda a ilustrar a conexão entre esses casos: em um comício realizado no Acre em 2018, o então candidato Jair Bolsonaro empunhou um tripé de câmera como se fosse um fuzil e gritou “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre, hein? Vamos botar esses picaretas para correr no Acre”. Posteriormente, ele alegou que a fala tinha sentido figurado.
Esse processo é o que produz, segundo Castro Rocha, uma “desqualificação nulificadora”. O outro, além de um inimigo, é reduzido ao nada e “contra o nada, toda violência física é aceitável”, explica.
Para o historiador, a fala do ex-presidente e as ações de violência perpetradas por apoiadores não são uma simples coincidência. A relação entre os dois fatos é de causalidade:
“Quando um candidato à presidência da república pode dizer “vamos fuzilar a petralhada” e todos nós consideramos normal. Depois, um bolsonarista radicalizado pelo discurso do presidente pode invadir uma festa de aniversário e assassinar um petista apenas por ser petista”
Quando o lucro depende do conflito
A radicalização política costuma ser tratada apenas como um problema eleitoral ou ideológico. Mas ela também responde a uma lógica econômica. O ressentimento mobiliza comunidades, essas comunidades geram engajamento e o engajamento pode ser convertido em influência, dinheiro e poder.
Nesse cenário, guerras culturais deixam de ser episódios isolados e passam a integrar uma estratégia permanente de mobilização. Afinal, quando o conflito se torna um ativo econômico, a paz deixa de interessar a quem lucra com a indignação permanente.
Compreender esse mecanismo é um passo importante para reconhecer como a extrema direita transforma medo, ressentimento e desinformação em uma indústria capaz de produzir riqueza, fortalecer lideranças e, em seus casos mais extremos, legitimar a violência política.