Por Gabriel Gomes
Um monitoramento de publicações no Instagram identificou 13 mil ataques direcionados a candidaturas LGBT+ durante as eleições de 2026. Os dados são da plataforma Sentinela, desenvolvida pelo Instituto Plena Cidadania (IPC), responsável pelo VoteLGBT, e divulgados nesta sexta-feira (2).
Desde o início do período eleitoral, o projeto acompanhou mais de 1 milhão de interações nas contas de candidaturas que autorizaram o monitoramento. Desse universo, 307.185 comentários com potencial de violência foram submetidos a uma análise mais aprofundada. Ao final, 13 mil foram classificados como ofensivos e dirigidos a uma pessoa ou candidatura identificável.
Segundo o levantamento, os ataques partiram de mais de 11 mil contas diferentes. A plataforma também encontrou sinais de recorrência: 1.267 perfis atacaram a mesma candidatura em mais de uma publicação. Entre eles, um grupo de 224 contas concentrou 1.718 comentários.
A violência atingiu principalmente candidaturas de mulheres, que representam 92,7% dos alvos, enquanto 83,6% das agressões foram direcionadas a candidaturas negras, de acordo com os resultados parciais.
Quatro candidaturas a deputada federal concentram 83% dos ataques identificados: Erika Hilton (PSOL-SP), Duda Salabert (PSOL-MG), Benny Briolly (PT-RJ) e Thabatta Pimenta (PV-RN). Candidata à reeleição, Hilton aparece como alvo de aproximadamente dois terços dos casos mapeados.
A Sentinela afirma ainda ter identificado, entre os autores de comentários classificados como transfóbicos, candidaturas vinculadas ao Novo, PSDB e PL.
Indícios de atuação coordenada
Um dos episódios destacados pelo levantamento envolve o vereador Fabrício Rosa (PT-GO), candidato a deputado estadual em Goiás. Segundo a Sentinela, 63 contas diferentes publicaram a mesma mensagem contra ele em um intervalo de aproximadamente três minutos.

Para os responsáveis pelo projeto, a combinação entre mensagens idênticas, grande número de perfis e curto espaço de tempo constitui um indício de comportamento coordenado, embora sejam necessárias investigações adicionais para determinar a origem e eventual articulação entre as contas.
O Instituto Plena Cidadania também informou ter protocolado, em 23 de setembro, uma notícia-crime na Justiça Eleitoral contra três candidatos a deputado federal por ataques considerados discriminatórios contra Erika Hilton e Duda Salabert. Segundo a entidade, as mensagens buscavam desqualificar as parlamentares por meio de referências à identidade de gênero.
O instituto também levanta questionamentos sobre eventual utilização de recursos públicos de campanha na produção ou disseminação de conteúdo discriminatório. A existência de irregularidade ou crime, no entanto, depende de apuração pelas autoridades competentes.
“No Brasil LGBTfobia é crime e o financiamento de campanha é público. No nosso entender, recursos públicos não deveriam ser usados para financiar crimes”, afirmou Gui Mohallem, da direção executiva do Instituto Plena Cidadania.
A plataforma utiliza coleta automatizada, classificação e inteligência artificial generativa para analisar os comentários. Segundo o IPC, casos considerados ambíguos são excluídos da contabilização para reduzir o risco de falsos positivos.
Os números ainda são parciais e continuarão sendo atualizados durante o processo eleitoral.