Por Cleber Lourenço
Os juros médios cobrados das famílias brasileiras chegaram a 62,4% ao ano, mesmo após cinco reduções consecutivas da taxa básica de juros. Apesar do crédito mais caro, o Banco Central decidiu, nesta quarta-feira (4), interromper os cortes e manter a Selic em 13,75% ao ano. A decisão prolonga os juros elevados em um país onde as famílias já comprometem quase um terço da renda com o pagamento de dívidas.
A Selic é a taxa que serve de referência para os juros da economia brasileira. Ela influencia quanto bancos cobram por empréstimos e financiamentos e quanto investidores recebem em determinadas aplicações financeiras. Quando essa taxa cai, a expectativa é que o crédito também fique mais barato, embora o efeito não seja imediato.
Mas os dados do próprio Banco Central mostram que isso não aconteceu na média dos empréstimos às famílias. Em março, quando começou o ciclo de cortes, os juros do chamado crédito livre, que inclui cartão de crédito e empréstimos pessoais, estavam em 61,5% ao ano. Em setembro, último mês com dados disponíveis, chegaram a 62,4%.
No mesmo intervalo, a Selic caiu de 15% para 13,75% ao ano. O contraste mostra que a redução da taxa básica ainda não se traduziu em crédito mais barato para os consumidores.
Dívidas consomem quase um terço da renda
O peso dos empréstimos aparece no orçamento doméstico. Segundo o Banco Central, as famílias brasileiras comprometem, em média, 29% da renda com o pagamento de dívidas, percentual que aumentou 1,4 ponto em doze meses.
A inadimplência também cresceu. Em setembro, 8,1% das operações de crédito livre destinadas às pessoas físicas estavam inadimplentes, alta de 1,2 ponto percentual em relação ao ano anterior.
Os bancos justificam parte dos juros elevados pelo risco de não receber os empréstimos. Também entram nessa conta despesas administrativas, impostos e margens financeiras. O próprio BC aponta que parte do aumento recente decorreu de mudanças nos tipos de crédito contratados, o que impede atribuir toda a alta diretamente ao lucro das instituições financeiras.
Banco Central reconhece desaceleração, mas mantém juros elevados
A decisão de interromper os cortes ocorreu mesmo diante de sinais de enfraquecimento da economia. No comunicado divulgado após a reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) reconheceu a desaceleração da atividade econômica, mas considerou necessário manter os juros elevados para conter a inflação.
Na prática, a manutenção da Selic encarece o financiamento de empresas e consumidores, dificulta investimentos e pode reduzir o ritmo de geração de empregos. Ao mesmo tempo, aplicações financeiras vinculadas à taxa básica, como determinados títulos públicos, continuam oferecendo rendimentos elevados aos investidores.
A política também pesa sobre as contas públicas. Como parte da dívida do governo acompanha a Selic, a manutenção dos juros elevados aumenta o custo de financiamento do Estado, pressionando o orçamento federal.
O Banco Central não estabeleceu prazo para retomar os cortes. A próxima reunião do Copom está prevista para dezembro, enquanto os brasileiros continuam enfrentando juros elevados para financiar o consumo e reorganizar suas dívidas.