Por Cleber Lourenço
Um ponto percentual adicional na taxa Selic pode custar R$ 476 bilhões aos cofres públicos entre 2027 e 2030. A estimativa é do próprio Tesouro Nacional e expõe uma das maiores contradições da política econômica brasileira: enquanto o mercado financeiro exige cortes de despesas, contenção de investimentos e austeridade fiscal, a manutenção dos juros elevados alimenta uma conta bilionária para o Estado e garante remuneração elevada aos detentores de títulos públicos.
O cálculo consta do Relatório de Riscos Fiscais da União de 2026, divulgado nesta semana. Segundo o documento, uma Selic um ponto percentual acima da trajetória projetada representaria R$ 78,3 bilhões adicionais somente em 2027. Em quatro anos, o custo acumulado chegaria a R$ 476 bilhões.
Na direção contrária, uma taxa um ponto percentual abaixo do cenário central produziria uma economia estimada de R$ 463,6 bilhões no mesmo período.
São simulações, não despesas ou economias já realizadas. Mas os números deixam evidente a dimensão fiscal de uma política monetária que frequentemente é apresentada como instrumento de responsabilidade econômica, embora também contribua para aumentar o endividamento público.
O cenário do Tesouro considera uma Selic média de 12,5% em 2027, com redução gradual até 8,3% em 2030. Mesmo pequenas diferenças nessa trajetória representam centenas de bilhões de reais.
O dado desmonta a ideia de que o equilíbrio das contas públicas depende exclusivamente de cortar despesas, restringir investimentos ou reduzir programas sociais. A taxa de juros também pesa sobre a dívida. E pesa muito.
A austeridade que não chega aos rentistas
A contradição se torna ainda mais evidente quando se observa quem recebe os juros pagos pelo governo.
Conforme levantamento publicado pelo ICL Notícias, bancos e fundos de investimento concentram aproximadamente R$ 3,37 trilhões em títulos públicos remunerados pela Selic, quase 70% dos papéis dessa modalidade.
Na prática, parte expressiva dos recursos destinados ao pagamento de juros remunera justamente instituições financeiras que participam do debate público cobrando disciplina fiscal, redução de despesas e contenção do gasto estatal.
É uma assimetria difícil de ignorar. Quando o dinheiro público financia políticas sociais, investimentos ou serviços, o discurso dominante no mercado costuma enfatizar os riscos fiscais. Quando remunera aplicações financeiras por meio de juros elevados, a despesa é frequentemente tratada como consequência inevitável da política monetária.
O rigor fiscal exigido do governo parece perder intensidade quando a conta beneficia os credores da dívida pública.
Isso não significa que os R$ 476 bilhões projetados pelo Tesouro seriam integralmente destinados aos bancos, nem que a remuneração dos títulos seja ilegal ou indevida. A questão é outra: a política de juros tem beneficiários identificáveis, produz custos fiscais expressivos e também precisa ser submetida ao escrutínio reservado às demais despesas do Estado.
Banco Central mantém juros e amplia pressão sobre as contas públicas
O relatório foi divulgado às vésperas da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), que manteve a Selic em 13,75% ao ano nesta quarta-feira (4), interrompendo cinco reduções consecutivas.
O Banco Central justificou a decisão com o aumento das incertezas econômicas, das expectativas de inflação e dos riscos fiscais.
Mas o documento do Tesouro evidencia justamente um dos problemas desse raciocínio: juros elevados também pressionam a dívida pública, ampliando as despesas financeiras que o governo precisa administrar.
O economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, tem questionado a insistência em taxas elevadas e defendido uma redução mais acelerada dos juros como parte da estratégia para estabilizar a dívida.
O debate coloca em questão o próprio funcionamento da autonomia do Banco Central. Embora suas decisões tenham consequências diretas sobre as contas públicas, o crédito, a atividade econômica e a capacidade de investimento do governo, a autoridade monetária não está subordinada às prioridades econômicas do presidente eleito.
O resultado é um desequilíbrio político: cobra-se do governo responsabilidade por uma dívida cujo custo também é determinado por decisões de uma instituição autônoma, enquanto o mercado financeiro exerce influência sobre as expectativas que orientam essas decisões.
O Tesouro agora coloca números nessa discussão. Uma diferença de apenas um ponto percentual na trajetória dos juros pode representar quase meio trilhão de reais em quatro anos.
É dinheiro público que deixa de estar disponível para outras prioridades fiscais. E, enquanto a austeridade continua sendo apresentada como obrigação para o restante do país, a remuneração elevada dos credores segue ocupando um espaço privilegiado no debate econômico brasileiro.