Por Cleber Lourenço
O Relatório Anual da Diretoria do Clube Militar do Rio de Janeiro, publicado em junho, reforça um diagnóstico que vem se agravando ao longo dos anos: a influência e a relevância da instituição vêm diminuindo de forma constante. Entre julho de 2024 e junho de 2025, o Clube perdeu mais associados do que conquistou — foram 642 desligamentos contra 507 admissões, ampliando uma tendência de retração que já dura ao menos uma década.
A informação foi publicada pelo site Sociedade Militar e confirmada pelo ICL Notícias que teve acesso ao relatório.
A queda se concentra justamente entre os sócios efetivos e vinculados contribuintes — os únicos que sustentam financeiramente o Clube. Só nessa faixa, houve 501 desligamentos contra 299 novas adesões. A entidade, que registrava 39.280 associados em 2014, chega agora a 26.080 — uma perda de mais de 13 mil membros em dez anos.
O documento oficial reconhece a dificuldade em reverter esse cenário. “A média de idade dos sócios efetivos (que pagam mensalidade) e remidos está muito elevada, em torno de 64 anos”, afirma um dos trechos. Mesmo com campanhas voltadas para alunos da AMAN e outras escolas de formação militar, a captação de novos associados jovens tem sido insuficiente. Iniciativas como a cobrança simbólica de apenas 10% da mensalidade para aspirantes e guardas-marinha não têm conseguido rejuvenescer o quadro social.
Embora a diretoria cite fatores como baixa remuneração dos militares e distância geográfica da sede como justificativas para o desligamento de sócios, o relatório não aborda um aspecto central: o papel da oficialidade da ativa na manutenção do Clube. A presença desses oficiais é preponderante para a sobrevivência da entidade. São eles, ainda na ativa, que compõem o fluxo potencial de novos associados e que poderiam garantir a renovação institucional.
Clube Militar é palco de manifestações políticas
Esse vínculo, no entanto, levanta outra questão sensível. O Clube Militar há décadas é palco de manifestações políticas, muitas vezes alinhadas a segmentos ideológicos específicos dentro das Forças Armadas. Se a oficialidade da ativa é sócia da instituição — como as campanhas de cooptação indicam —, então participa, direta ou indiretamente, do ambiente político cultivado ali. Se não participa ativamente, poderia — e talvez devesse — exercer influência para assegurar um perfil mais institucional e apolítico à entidade.

O relatório também destaca que, apesar das dificuldades com a arrecadação, a gestão conseguiu fechar 2024 com superávit de R$ 175 mil. Ainda assim, a dependência de um número cada vez menor de sócios pagantes coloca em risco a sustentabilidade a médio prazo. Em 2025, apenas 4.056 sócios efetivos permaneciam ativos.
Curiosamente, enquanto a base financeira se retrai, os investimentos aumentaram: a sede da Lagoa concentrou 90,77% dos recursos aplicados em 2024, com obras, eventos, cursos e digitalização de acervo. O esforço de modernização convive com o esvaziamento progressivo do que sustenta o Clube: sua função como espaço de representação da oficialidade.
Para o jornalista e sociólogo, Robson Augusto, que também é editor-chefe do site Sociedade Militar, a situação do clube acompanha a própria mudança de perfil da carreira militar:
“a carreira militar que no passado era um ‘casamento’, hoje é apenas mais um emprego… Como qualquer outro. Muitos oficiais hoje ingressam nas Forças Armadas com foco em estabilidade financeira e não demonstram interesse em construir vínculos institucionais duradouros. Para boa parte deles, a permanência na carreira militar é vista como temporária, dependendo das oportunidades externas, o que pode ser comprovado por artigos recentes em jornais e revistas sobre a evasão de jovens oficiais. O cenário atual contrasta fortemente com o passado de ouro dos Clubes Militares, quando ser oficial do Exército era sinônimo de status e pertencimento a uma elite nacional e a participação ativa em clubes como o Clube Militar era valorizada como fator de integração, networking e até como elemento formador da identidade do oficialato.”
A reflexão de Robson ajuda a compreender como o distanciamento dos jovens oficiais e a ausência de engajamento efetivo dos quadros da ativa contribuem para o esvaziamento da entidade — não apenas em termos numéricos, mas simbólicos. Sem a renovação vinda da ativa e sem um posicionamento claro sobre seu papel institucional, o Clube Militar segue perdendo relevância dentro e fora dos quartéis, para o bem da democracia.