O mundo está mudando.
As potências tradicionais, como Estados Unidos e grandes países da Europa, vêm perdendo força e enfrentando questionamentos.
Entre alguns pontos de viradas que vimos nos últimos anos, podemos pontuar a dificuldade de resolver conflitos internacionais, o aumento da desigualdade social em suas próprias populações e o enfraquecimento de suas democracias com o crescimento da extrema-direita.
Ao mesmo tempo que tudo isso está acontecendo, outros países fora dos holofotes ganharam mais espaço e estão buscando participar das decisões globais.
É nesse contexto que o BRICS aparece como uma alternativa importante, propondo novas ideias para a forma como o mundo é governado. Vamos entender o que é o BRICS, qual seu impacto na geopolítica do mundo e qual o papel do Brasil nessa diplomacia que se faz cada vez mais importante.
O que é o BRICS?
O BRICS é um agrupamento formado por onze países membros: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã.
Os objetivos do BRICS incluem fortalecer a cooperação econômica, política e social entre seus membros, bem como promover um aumento da influência dos países do Sul Global na governança internacional.
O grupo quer que todos tenham mais voz nas grandes decisões do mundo, não só os países ricos. Por isso, defende mudanças em instituições como a ONU, o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio (OMC), que hoje ainda funcionam de forma desigual.
Além disso, o BRICS também quer ajudar os países a se desenvolverem de forma justa, com menos desigualdade e mais qualidade de vida para as pessoas.
O protagonismo do Sul Global
De forma resumida, os BRICS se posicionam como uma alternativa política e simbólica à ordem internacional ocidental, buscando reformas em instituições tradicionais e maior protagonismo para países do Sul Global — como Brasil, Índia, África do Sul, Indonésia, Etiópia, Egito e outros que historicamente ficaram de fora das grandes decisões internacionais.
Os BRICS querem mudar a centralização das decisões internacionais nas mãos dos países ricos e criar mais espaço para países que ficaram de fora.
Para isso, os países do grupo trocam experiências, compartilham tecnologias e investem uns nos outros, buscando soluções em conjunto para problemas parecidos.
Segundo dados do Itamaraty, os BRICS representam cerca de 42% da população mundial, 23% do PIB global e mais de 16% do comércio internacional. Essa expressiva participação dá ainda mais legitimidade ao grupo para demandar maior representatividade nos espaços decisórios do sistema internacional.

BRICS e o Norte Global
O BRICS quer mudar a forma como o mundo é governado hoje, que ainda é muito controlada pelos países ricos do Norte Global.
Para isso, criaram o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), como uma alternativa a instituições como o FMI e o Banco Mundial, que costumam impor regras difíceis para quem precisa de ajuda, principalmente os países mais pobres.
Segundo dados do próprio NBD, o banco já aprovou mais de US$30 bilhões em financiamentos para projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável nos países membros.
Ainda sobre a atuação do banco, em 2025, o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais decidiu financiar projetos de sustentabilidade de empresas e prefeituras com captação de US$ 200 milhões junto ao NBD.
Isso não significa que o grupo quer romper com os países ricos, mas sim propor um modelo onde todos tenham mais voz e poder nas decisões. Países como Brasil, Índia e África do Sul querem ser ouvidos e participar de igual para igual nos debates globais.

BRICS: política externa e diplomacia
O BRICS é uma peça importante na estratégia do Brasil para ampliar suas alianças pelo mundo e aumentar sua influência internacional.
A participação brasileira no grupo ajuda o país a buscar mais espaço nas decisões globais, pressionar por mudanças em instituições e reforçar a ideia de uma cooperação mais justa entre os países do Sul Global.
Durante os governos Lula, o Brasil investiu fortemente na construção de uma política externa autônoma e voltada ao diálogo com diferentes regiões do mundo.
A atuação dentro do BRICS reforça essa postura: o país se coloca como um elo entre diferentes continentes e defende uma ordem internacional mais inclusiva. Em 2023, por exemplo, o Brasil apoiou a entrada de novos países no grupo, mostrando seu compromisso com uma representação mais ampla do Sul Global.
De acordo com o Itamaraty, o BRICS não deve ser visto como um grupo contra o Ocidente.
Pelo contrário, ele funciona como um espaço complementar, onde o Brasil consegue equilibrar suas relações com várias potências e manter uma diplomacia independente. A presidência do grupo é exercida de forma rotativa pelos países membros e, em 2025, foi a vez do governo brasileiro exercer a liderança do BRICS. Por isso, o país lançou um portal exclusivo, que reúne informações sobre os objetivos e iniciativas da presidência brasileira do grupo.
Além disso, segundo a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), o Brasil tem a chance de transformar o BRICS em um verdadeiro motor de mudanças econômicas e sociais, aproveitando o espaço para propor políticas que estimulem o crescimento com inclusão.

O Brasil na governança global do BRICS
Historicamente, o Brasil sempre buscou uma diplomacia baseada em princípios como a não intervenção, a solução pacífica de controvérsias e a defesa do direito internacional.
No cenário atual, a disputa entre Estados Unidos e China se intensifica em várias frentes.
Desde a corrida por tecnologias de ponta até o comércio internacional e na influência sobre países da Ásia, África e América Latina.
Exemplo disso é a guerra comercial iniciada durante o segundo governo Trump, com aumento de tarifas entre os dois países, e a disputa pela liderança em setores estratégicos como inteligência artificial, semicondutores e transição energética.
Nesse contexto de tensão, o Estado brasileiro tem a chance de se colocar como um mediador confiável, com capacidade de diálogo com os dois lados, buscando alianças equilibradas e defendendo soluções negociadas em fóruns multilaterais.
Esse papel ganhou ainda mais relevância com o Brasil na presidência do BRICS em 2025, o que reforça sua posição de liderança em temas globais e amplia sua influência nas articulações internacionais.

O papel do Brasil nos palanques públicos
O país tem o potencial de liderar o debate em setores como segurança alimentar, transição energética, sustentabilidade, e tem se destacado ao reforçar sua soberania no cenário internacional.
A atuação brasileira na COP e em fóruns de combate à fome, por exemplo, mostra que o país tem conhecimento e experiência para influenciar agendas globais.
Além disso, o Brasil tem participado ativamente de discussões sobre a reforma tributária global, promovida no âmbito da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e do G20 — fórum internacional que reúne 19 países, a União Europeia e a União Africana — , e liderado negociações sobre a criação de um fundo climático voltado para países em desenvolvimento.
Não só isso, mas a realização do G20 sob presidência brasileira, em 2024, foi outro sinal do reconhecimento internacional ao papel que o Brasil pode exercer.
O BRICS, apesar de parecer um tema distante da realidade cotidiana, tem potencial de influenciar diretamente a vida do brasileiro. A atuação do grupo na política internacional pode se desdobrar em transformações econômicas e sociais sentidas nas cidades, no comércio, na indústria e até mesmo no bolso de quem vai ao mercado ou compra produtos importados.
Ao buscar um modelo mais justo de governança global, o BRICS também atua na construção de novas rotas comerciais e acordos bilaterais que podem baratear produtos e facilitar o acesso a tecnologias.
Se o Brasil fortalecer sua relação com países como China, Índia e África do Sul dentro desse bloco, cresce a possibilidade de acordos que reduzam tarifas de importação, melhorem o fluxo de produtos essenciais e ampliem o acesso a insumos estratégicos para a indústria nacional.
Um exemplo possível: a compra de medicamentos ou fertilizantes pode ser feita diretamente de países parceiros, com menos intermediários e, portanto, com preços mais baixos. Outro ponto importante é o financiamento para infraestrutura e desenvolvimento sustentável oferecido pelo Novo Banco de Desenvolvimento (NBD).
Projetos de saneamento básico, transporte público, energias renováveis e digitalização em cidades brasileiras já começam a surgir como prioridade.
Com esses investimentos, há geração de empregos, aumento da renda local e melhorias nos serviços públicos. Municípios pequenos e médios podem se beneficiar desses recursos, promovendo inclusão social e econômica.
Além disso, o fortalecimento do BRICS também favorece uma política externa mais soberana, que coloca os interesses do Brasil no centro das decisões.
Isso contribui para que o país tenha mais liberdade para definir sua estratégia de desenvolvimento, proteger setores estratégicos da economia e priorizar políticas públicas voltadas para as necessidades do seu povo.
É claro que nada disso acontece da noite para o dia.
Mas ao ocupar um papel de destaque em fóruns internacionais, o Brasil pavimenta um caminho para políticas de longo prazo que podem resultar em mais estabilidade econômica, menos dependência de países centrais e mais oportunidades para quem vive aqui.
Em um mundo em constante transformação, o BRICS representa uma tentativa concreta de construir uma nova ordem global mais inclusiva, mais plural e, sobretudo, mais justa para todos.