Por Lucas Rocha e João Justino*
Quem matou Odete Roitman? A pergunta que mobilizou os telespectadores na virada de 1988 para 1989 voltou a ecoar na TV brasileira. Ainda que a reta final tenha tido certo impacto, o remake de Vale Tudo, da TV Globo, chega ao fim nesta sexta-feira (17) sem ter sido o mesmo fenômeno da versão original. A reedição pecou em muitos pontos, em especial o de abrir mão de algo que foi elemento central na original: o debate político.
Não era nada fácil a missão de reeditar uma das novelas mais icônicas da história da TV brasileira, ainda mais uma que se relacionou tão intimamente com a conjuntura político-social de 1988. Vale Tudo, de alguma forma, foi um retrato das angústias, das contradições e dos anseios daquele Brasil da redemocratização. O fio condutor (vale tudo para vencer na vida?) trazia também um debate sobre qual Brasil que queríamos.
O cenário do Brasil em 1988
Era o ano em que a constituinte acontecia. E o noticiário aparecia na TV de Bartolomeu (Cláudio Correa). Jornalista, assim como a Solange (Lídia Brondi) e Mário Sérgio (Marcos Palmeira), ele era testemunha e agente dessa nova cena do Brasil democrático, que pautava a alta inflação de mais de 1037,56% ao ano do governo Sarney, desemprego, poder de compra corroído e outras situações sociais como assuntos corriqueiros. Marco Aurélio (Reginaldo Faria) e Renato (Adriano Reys) só moram juntos por conta da crise imobiliária carioca, não por conta de uma reforma de luxo.
Laís (Cristina Prochaska) e Cecília (Lala Deheinzelin) vs. Marco Aurélio refletiam a disputa da herança de Marco Rodrigues, viúvo do herdeiro magnata Jorge Henrique Guinle – que na vida real teve seu testamento contestado pela própria família. Gilberto Braga, Leonor Bassères e Aguinaldo Silva dão visibilidade à união homoafetiva e a pauta sucessória LGBT num mundo em que até a OMS estava na contramão.
Ivan (Antônio Fagundes), preso injustamente numa trama de Odete (Beatriz Segall), escreve um livro com o nome da novela – onde fala sobre o cansaço com a desonestidade e os episódios de corrupção de colarinho branco que viveu, com uma semente de esperança no futuro.

Mas enquanto a original discutia ética, o remake de Vale Tudo em 2025 discute métrica. Audiência virou consumidores. Crítica virou hate watching. E o recorde é de publicidade.
Em entrevista antes da estreia, a autora Manuela Dias reduziu Vale Tudo ao conflito entre mãe e filha, esquecendo que a obra original ia além dos conflitos da vida privada e refletia a redemocratização e a vontade de pensar um novo país — sem ditadura, sem censura e com democracia. Algo bem comum em produções artísticas daquele período histórico.
O cenário do Brasil em 2025
Em 2025, também havia espaço para uma discussão nesse nível. Durante o período de exibição do folhetim, o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros aliados foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal por terem arquitetado uma trama golpista. Pela primeira vez, generais se sentaram no banco dos réus, em um episódio que representou o Brasil buscando acertar as contas com seu passado.
Não, a novela não precisaria virar uma extensão do Jornal Nacional, mas poderia fazer a sociedade refletir sobre o momento conturbado de acirramento de ânimos que vivemos. No auge da desinformação, quase retornamos a uma ditadura e era de se esperar que parte desse caldo social fervilhante pudesse ser visto na dramaturgia.
Era comum ver Beatriz Segall, no auge de sua atuação, entregar falas com subtexto na realidade brasileira. Como dizer que esse país só iria para frente se condenasse bandidos com pena de morte. E cortasse as mãos de ladrões em praça pública. Enquanto Solange, Celina (Nathalia Timberg) e Renato defendiam o contraponto civilizatório.
É natural que o texto se atualize, mas seria mais elegante evoluir. Poderíamos ter uma Odete Roitman (Deborah Bloch) que odeia a Justiça brasileira. Que critica os tribunais por ser condenada a pagar direitos trabalhistas ou até que acreditasse em terra-plana e ozonioterapia. Uma patriota que escreve Brasil com Z e faz alguma alusão ao que está acontecendo mundo afora.
É inegável que houve tentativas. Mas os voos de Manuela foram de galinha. Tigrinho. Pensão. Alcoolismo. Câncer. Influenciadores. Piscinas de oportunidade. Mas nesse caso, profundas como pires. O remake virou uma versão ‘brain rot’ da original. A expressão (“apodrecimento do cérebro”, na tradução literal) foi escolhida a palavra do ano pela Oxford em 2024 e é definida como “deterioração do estado mental ou intelectual de uma pessoa, especialmente vista como resultado do consumo excessivo de material considerado trivial ou pouco desafiador”.
Nesse sentido, foram descartados os densos diálogos entre Ivan e Bartolomeu, as reflexões sobre socialismo e patriotismo levantadas por Afonso (Cássio Gabus Mendes). As conversas entre Leila (Cássia Kiss/Carolina Dieckmann) e Eunice (Íris Bruzzi/Edvana Carvalho) sobre sexualidade foram retomadas, mas ficaram mais curtas que uma novela de kwai.
A trama de Lucimar (Ingrid Gaigher) e Vasco (Thiago Martins), tão exaltada pela autora por ter feito mulheres buscarem a Defensoria Pública para conseguir receber pensão para seus filhos, terminou com uma reconciliação sem sentido que tirou toda a força da mensagem que passava a personagem.
A dependência da figura masculina fica mais esquisita quando se trata do casal Cecília (Maeve Jenkings) e Laís (Lorena Lima). Após conseguirem prender um golpista que tentou se passar como pai biológico de Sarita (Luara Telles), o casal decide colocar Marco Aurélio (Alexandre Nero) como padrinho para “resolver” a situação. Resolver o que? A mensagem que passa é que não bastam duas mães, é preciso ter uma figura paterna, um retrocesso gigantesco — principalmente pelo fato de que essa figura tentou tirar delas a guarda da filha.
Remake de Vale Tudo tropeçou nas próprias contradições
O paradoxo que melhor retrata as contradições do remake de Vale Tudo talvez seja a construção da personagem Solange (Alice Wegman), uma ex-black bloc que virou diretora de agência de publicidade, tinha orgulho em ser workaholic e reivindicava ser “resistência” enquanto protagonizava os merchans mais forçados do folhetim. Em uma cena estapafúrdia, a “rebelde” dizia que adorava checar seus e-mails após um orgasmo. Uma “revolucionária” que deixava até o seu momento de prazer ser regulado pelo capital.
É lógico que o demérito não é de Alice, que caminhou na corda bamba para dar sentido a uma personagem tão fragmentada. O ponto alto de Vale Tudo, inclusive, foi o seu elenco.
E foi já na escalação do elenco o grande trunfo da reedição do folhetim. Não caberia em pleno 2025 um elenco completamente embranquecido como o de 1988. O Brasil não se vê mais assim. O apagamento racista que imperou por anos na televisão hoje não é mais aceito, tanto no meio artístico quanto na sociedade.
Das 4 protagonistas do remake — Raquel Acioli (Taís Araújo), Maria de Fátima Acioli (Bella Campos), Odete Roitman (Deborah Bloch) e Helena Roitman (Paola Oliveira) —, duas eram mulheres negras. Em 1988, as quatro eram brancas.

Mesmo assim, houve críticas pela forma como foi estruturada a narrativa de Raquel. A própria atriz que viveu a personagem, que enxergava em Raquel uma nova representação da mulher negra na dramaturgia, fez um desabafo sobre a frustração com os rumos do folhetim. No último terço da novela, a protagonista parecia ter virado coadjuvante.
“Como uma artista que quer contar uma nova narrativa para o país, e a dramaturgia proporciona isso, confesso que fico triste e frustrada”, afirmou Taís em entrevista ao jornalista Patrick Monteiro, da Quem.
A novela é uma conversa cultural, mas também molda o imaginário. Assim como a original, poderia ser uma oportunidade de refletir (e, quem sabe, aprender), mas Vale Tudo abriu mão disso. Ao invés de um retrato social, se tornou uma novela “reborn”.
* Lucas Roca é jornalista do ICL Notícias. João Justino é jornalista, criativo e noveleiro