Caso Master reacende tensão entre bolsonarismo e lavajatismo no Senado

Ataques de Flávio Bolsonaro contra CPI que mira Moraes e Toffoli expõem nova fissura na direita no contexto do caso Banco Master
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Por Cleber Lourenço

O avanço das revelações relacionadas ao caso Banco Master começa a produzir efeitos políticos no Senado e pode reabrir uma disputa antiga dentro da direita brasileira: o conflito entre o bolsonarismo e o grupo de parlamentares associados ao legado da Operação Lava Jato.

Nos últimos dias, senadores alinhados ao discurso anticorrupção voltaram a pressionar pela abertura de investigações no Congresso após novas informações envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e possíveis relações institucionais com integrantes do Supremo Tribunal Federal.

O movimento ganhou força após o senador Alessandro Vieira protocolar um pedido de Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar eventuais relações entre ministros do STF e Vorcaro.

A reação mais dura veio do senador Flávio Bolsonaro, que passou a criticar publicamente a iniciativa. Em declarações recentes, o parlamentar afirmou que a proposta de CPI seria “ilegal” e questionou a legitimidade de uma investigação que tivesse como foco ministros da Suprema Corte.

As críticas chamaram atenção no Senado. Durante os quatro anos do governo Jair Bolsonaro, o Supremo Tribunal Federal foi alvo constante de ataques do bolsonarismo, especialmente o ministro Alexandre de Moraes, frequentemente apontado por aliados do ex-presidente como adversário político do governo.

Diante desse histórico, parlamentares foram surpreendidos pela cautela de Flávio Bolsonaro diante de um episódio que expõe o tribunal em um momento de forte pressão política.

Nos bastidores do Senado, a interpretação que passou a circular é que a resistência do senador pode estar relacionada ao alcance potencial das investigações. Isso porque o caso Master envolve conexões complexas entre investidores, fundos de investimento e atores políticos.

Um dos pontos que voltaram ao debate é a estrutura financeira utilizada em operações ligadas ao resort Tayayá. Documentos e reportagens indicam que a aquisição de participações no empreendimento ocorreu por meio de uma cadeia de fundos de investimento.

Nesse arranjo financeiro, aportes teriam sido realizados pelo pastor Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro. Os recursos teriam transitado por fundos administrados pela gestora Reag Investimentos até chegar ao FIP Arleen, responsável pela aquisição de participações nas empresas ligadas ao empreendimento.

Zettel também aparece como um personagem relevante no financiamento político da direita nas eleições de 2022.

Registros eleitorais mostram que ele foi um dos maiores doadores da campanha presidencial de Jair Bolsonaro naquele pleito. O empresário também figura entre os principais financiadores da campanha que levou Tarcísio de Freitas ao governo de São Paulo no mesmo ano.

Essas conexões políticas ajudam a explicar a cautela demonstrada por parte do bolsonarismo diante da possibilidade de uma investigação parlamentar mais ampla sobre o caso.

O episódio também reabre uma disputa que marcou a política brasileira nos últimos anos.

Após a saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça em 2020, bolsonarismo e lavajatismo passaram meses em confronto público. Moro deixou o governo acusando Jair Bolsonaro de interferência política na Polícia Federal, episódio que provocou uma ruptura profunda entre os dois campos.

A divisão marcou a direita brasileira naquele período.

Dois anos depois, porém, o cenário mudou. Durante o segundo turno das eleições de 2022, Moro declarou apoio à candidatura de Bolsonaro, movimento que foi interpretado como uma tentativa de recomposição entre setores do bolsonarismo e antigos aliados da Lava Jato.

Apesar da reaproximação, os sinais de atrito nunca desapareceram completamente.

Um exemplo citado por parlamentares é a resistência do senador Flávio Bolsonaro em apoiar uma eventual candidatura de Sérgio Moro ao governo do Paraná. No início deste mês, o deputado federal Felipe Barros, aliado político de Flávio no estado, negou que houvesse qualquer articulação para aproximar Moro do grupo bolsonarista local.

Em entrevista à rádio Alternativa FM, Barros afirmou que não existe convite para que Moro se integre ao projeto político do PL no Paraná.

— Não existe convite. O Flávio Bolsonaro, meu amigo e nosso pré-candidato a presidente, não convidou o senador Sergio Moro para o PL. Estamos decididos. Nós continuaremos caminhhando ao lado do governador Ratinho Júnior por entender que aquilo que ele construiu ao longo desses últimos anos foi essencial para o Paraná — afirmou.

A declaração foi interpretada por interlocutores do Senado como mais um sinal de que a relação entre bolsonaristas e lavajatistas permanece marcada por desconfiança.

Agora, diante das pressões por investigações relacionadas ao caso Master e das críticas públicas entre senadores, cresce no Senado a avaliação de que uma nova tensão entre os dois campos pode estar em formação.

Nos bastidores da Casa, parlamentares avaliam que o avanço das apurações pode reacender divisões que pareciam superadas desde o fim das eleições de 2022.

 

O discurso anticorrupção muda quando a investigação ameaça aliados ou financiadores políticos? O documentário do ICL analisa o caso Master e expõe como essas contradições aparecem quando o esquema avança sobre o sistema político. A exibição é gratuita, em 31 de março, terça-feira, às 20h, com debate ao vivo após o filme. Vagas limitadas. Garanta seu ingresso!

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