Desde que Lula conseguiu a virada surpreendente sobre Flávio Bolsonaro e chegou à vitória no segundo turno da eleição presidencial deste ano, a maior parte dos jornais, sites e emissoras de Rádio e TV tem dedicado manchetes para defender o chamado “ajuste fiscal”. Traduzida, essa expressão significa cortar consideravelmente os gastos públicos que sustentam programas sociais importantes como Bolsa Família, Farmácia Popular, BPC, Pé de Meia e muitos outros.
Um dos principais motivos que levaram multidões às ruas do país foi justamente a oposição ao forte enxugamento de gastos que pretendia Flávio Bolsonaro, e a imprensa agora exige que Lula faça em seu quarto mandato.
Para criar o clima de terror econômico que se repete em todo início de governo do PT, a mídia corporativa destacou a reação do mercado à virada de Lula. Na segunda-feira (26), a Bolsa caiu quase 14%, o dólar chegou a R$ 5,40, os juros futuros dispararam e houve circuit breaker (interrupção temporária das negociações). Sem a devida contextualização, esses indicadores podem criar pânico na população.
A economista Deborah Magagna, apresentadora do programa Mercado e Investimento, no canal de YouTube do ICL Notícias, explica que não há motivo para desespero.
“A gente precisa prestar atenção no que realmente aconteceu de domingo para segunda. Não tivemos o aumento da dívida pública ou aumento de risco fiscal, nada disso. A gente não teve empresas brasileiras perdendo 14% a 50% dos seus fundamentos, ninguém perdeu capacidade de produzir. A economia brasileira não encolheu de um dia para o outro”, garante Deborah.
“O que mudou foi a expectativa de quem tinha apostado em um outro resultado eleitoral”.
A economista alerta para o fato de que a bolsa não é um termômetro neutro da economia: “Ela reflete também os interesses e preferências dos investidores. Quando essas apostas dão errado, o mercado reage. Mas isso não significa que o país tenha piorado de um dia para o outro”.

Fonteles evita o termo “ajuste” e fala em “equilíbrio fiscal”
A sequência de manchetes que tenta pressionar Lula a cortar drasticamente os gastos públicos só foi interrompida pela fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos. Mas nesta sexta-feira (30) a campanha dos meios de comunicação retomou sua força máxima.
Político próximos ao presidente Lula descartam que o quarto mandato siga o caminho pregado pela grande imprensa. Governador reeleito do Piauí com mais de 70% dos votos e cotado para ser ministro da Fazenda, Rafael Fonteles concedeu entrevista ao Estadão em que confirma uma visão bem distinta da economia.
“Eu não costumo nem usar a palavra ‘ajuste’, eu uso o termo ‘equilíbrio fiscal’, justamente para mostrar que são múltiplas as possibilidades de alcançar esse equilíbrio. Isso envolve cortes de privilégios e desperdício, e não vai envolver, com o presidente Lula, qualquer prejuízo social, qualquer corte em programas social que ele já constituiu e que ele prometeu na campanha eleitoral”, disse ele ao jornal.
Os noticiários, no entanto, continuam a criar clima de pânico, como destaca o jornalista Rodrigo Vianna, apresentador do ICL Urgente.
“O lobby da imprensa tradicional está acontecendo, basta assistir os telejornais. Dá a impressão que foi eleito o Flávio Bolsonaro com sua ministra Daniella Marques, aquela que que ele nomeou, acreditou que era ministra e aí saiu falando que ia cortar aposentadoria e Bolsa Família”, comentou Vianna, no programa desta sexta-feira (30).
“O Flávio perdeu, minha gente, a Daniella Marques não é ministra. O povo foi para a rua para defender Lula, para evitar que um miliciano fosse eleito presidente da República, mas não só isso: o povo disse ‘não’ ao programa econômico do Flávio e da Daniella Marques. Foi para a rua defender educação pública, investimento em universidade, investimento no SUS. Não venham agora tentar impor ao governo eleito, depois da maior mobilização de rua das últimas décadas o programa econômico que foi derrotado na urna”, alertou.
A campanha da grande imprensa desconsidera até a opinião de agentes do próprio mercado financeiro, que fazem avaliação bem diferente da situação econômica do país.
O proprietário do banco BTG disse em fevereiro que o novo presidente não iria receber uma ‘herança maldita’. “A gente está muito melhor do que parece sobre economia. O Brasil, seja quem for o próximo presidente no ano que vem, vai sentar na cadeira de uma maneira muito diferente do que foram os outros presidentes que fizeram bons governos”, disse, durante o CEO Conference, evento do próprio BTG. “Se você olhar em 94, era terra arrasada; 2002 era terra arrasada; 2017, terra arrasada do lado econômico. Quem for sentar na cadeira ano que vem não vai ter terra arrasada”.
O economista-chefe e sócio da Warren Investimentos, Felipe Salto, afirmou nesta sexta-feira (30) em entrevista à CBN, disse que a reação dos mercados após a reeleição de Lula reflete um período de espera pelas primeiras decisões do novo governo, especialmente na área econômica. Segundo ele, o cenário atual é de volatilidade, mas não de descontrole.