Flávio Bolsonaro me processou por causa de uma pergunta que fiz em programa do ICL

Ação judicial contra mim e o ICL expõe a hipocrisia da extrema direita sobre liberdade de expressão.
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Flávio Bolsonaro me processou por causa de uma pergunta. Em uma edição do programa ICL Eleições, veiculado no canal do YouTube do ICL Notícias, questionei: “Flávio Bolsonaro deixaria suas filhas sozinhas com seu candidato a vice?”.

A pergunta fazia referência às acusações envolvendo Alfredo Gaspar, que ele nega. Agora, Flávio e seu vice acionaram o Tribunal Superior Eleitoral contra mim e contra o ICL. O processo sustenta que houve divulgação eleitoral irregular.

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É evidente que a pergunta incomoda. Mas é difícil olhar para esse processo sem considerar também o histórico da minha cobertura. No Intercept, fui um dos autores de uma investigação que revelou informações sobre Flávio Bolsonaro e sua relação com Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master.

Hoje, como comentarista do ICL Notícias e editor da newsletter Noites Húngaras, continuo investigando personagens e relações do entorno do candidato. O ICL Notícias, por sua vez, tem mantido uma cobertura intensamente crítica e investigativa sobre Flávio Bolsonaro. É nesse contexto que recebo uma ação judicial movida pelo candidato à Presidência contra mim e contra o veículo em que trabalho.

Não posso afirmar qual foi a motivação subjetiva de Flávio para recorrer à Justiça além do que está escrito no processo. Posso, porém, registrar o efeito concreto: um candidato à Presidência está recorrendo ao Judiciário contra um jornalista e um veículo por causa de conteúdo jornalístico crítico.

Há ainda uma coincidência que considero especialmente relevante. O processo foi inicialmente distribuído a Kassio Nunes Marques, presidente do TSE. Nesta mesma semana, publiquei uma reportagem mostrando que o chefe jurídico da campanha de Flávio, Tracy Reinaldet, já dividiu defesas com Karine Nunes Marques, irmã do ministro, e com Otto Medeiros, advogado que Nunes Marques reconhece como amigo e cuja atuação já o levou a se declarar impedido em processos.

Nunes Marques, porém, não ficou com o processo. A própria defesa de Flávio pediu que o caso fosse analisado por André Mendonça, alegando que ele poderia estar prevento por outro processo relacionado a publicação com o mesmo “núcleo fático”. Nunes Marques encaminhou então os autos ao gabinete do ministro para que a eventual prevenção fosse avaliada.

Mendonça também é personagem de uma investigação que publiquei na newsletter Noites Húngaras: revelei informações sobre um encontro que ele manteve com Daniel Vorcaro em março de 2025. A existência desse histórico jornalístico não demonstra, evidentemente, parcialidade de nenhum ministro. Mas torna ainda mais importante que qualquer decisão seja fundamentada com transparência e submetida ao escrutínio público.

O episódio também merece ser observado diante do discurso recorrente de setores da direita e da extrema direita em defesa da liberdade de expressão, especialmente quando seus próprios integrantes são alvos de decisões judiciais. Liberdade de expressão e liberdade de imprensa, porém, não podem valer apenas para discursos convenientes a determinado campo político. O teste mais importante desses princípios aparece justamente diante de perguntas, críticas e investigações que incomodam quem exerce ou pretende exercer o poder.

É por isso que considero este processo maior do que a pergunta que lhe deu origem. Flávio Bolsonaro disputa a Presidência, e a maneira como candidatos se relacionam com jornalistas, instituições e críticas públicas é informação relevante para o eleitor.

Seria precipitado afirmar que uma ação judicial antecipa como funcionaria um eventual governo. Mas é legítimo perguntar que relação com a imprensa está sendo sinalizada quando uma campanha presidencial leva à Justiça jornalistas e veículos por conteúdos críticos — e quais limites devem existir para que instrumentos jurídicos não produzam intimidação ou efeito inibidor sobre a cobertura jornalística.

Quanto a mim, o processo não muda o essencial. Continuarei fazendo perguntas incômodas, investigando relações de poder e publicando o que for de interesse público, sempre sujeito às mesmas obrigações de qualquer jornalista: apurar, documentar, ouvir os envolvidos e corrigir quando necessário.

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