Lula perde 3,4 milhões de votos desde 2022; diferença para Flávio é de 2,2 milhões

Presidente teve queda em 98% dos municípios; quantidade de votos que deixou de receber em quatro anos supera distância atual para o candidato do PL
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Por Cleber Lourenço

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega ao segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com uma diferença de 2,2 milhões de votos para tirar — número menor do que a quantidade de eleitores que deixaram de votar no presidente em comparação com a eleição de quatro anos atrás.

Lula recebeu 53.876.617 votos no primeiro turno deste domingo (4), contra 57.259.504 na mesma etapa da eleição de 2022. São 3.382.887 votos a menos, uma redução de 5,9%. Flávio terminou com 56.104.268 votos, 2.227.651 à frente do presidente. Os dois tiveram, respectivamente, 47,03% e 45,16% dos votos válidos.

A redução na votação de Lula desde 2022 supera em 1.155.236 a distância que hoje o separa de Flávio. Isso não significa que esses eleitores estejam automaticamente disponíveis para o presidente, mas dimensiona o universo que mudou de comportamento entre as duas eleições.

Há quatro anos, Lula chegou ao segundo turno em uma situação inversa. No primeiro turno de 2022, terminou 6.187.159 votos à frente de Jair Bolsonaro: 57.259.504 contra 51.072.345.

Na etapa seguinte, Lula acrescentou 3.086.495 votos e chegou a 60.345.999. Bolsonaro cresceu ainda mais: conquistou outros 7.134.009 e alcançou 58.206.354, reduzindo a diferença para pouco mais de 2,1 milhões.

Para Fábio Vasconcellos, pesquisador da Rede de Pesquisa da Democracia (ReDem), o resultado atual coloca sobre Lula a necessidade de buscar eleitores que não estiveram com ele no primeiro turno.

“Essa diferença mostra uma vantagem substantiva para Flávio que transfere para o adversário a responsabilidade de reversão de votos, trabalho mais difícil, mas não impossível”, escreveu Vasconcellos em análise sobre o resultado.

Ele lembra justamente o que aconteceu quatro anos atrás. “Muitos eleitores que ajudaram nesse processo vieram justamente da ‘terceira via’ na época”, afirma.

Agora, há 9,32 milhões de votos válidos dados a candidatos que ficaram fora do segundo turno, além dos eleitores que votaram em branco, anularam ou não compareceram.

A cientista política Lilian Sendretti, doutora pela USP e pós-doutoranda da McGill University e do IPP-Cebrap, também vê espaço para movimentação entre os dois turnos. Ela lembra que a diferença atual é inferior a dois pontos percentuais e que, em 2022, a distância entre Lula e Jair Bolsonaro variou mais de três pontos de uma etapa para outra.

“Lula tem onde buscar voto, tanto entre os eleitores que não têm perfil ideológico definido e ficaram sem orientação de candidato e precisam ser disputados, quanto os quase 6 milhões de brancos e nulos e a abstenção, que historicamente pesa mais sobre o eleitorado lulista”, disse Sendretti ao ICL Notícias.

Para ela, parte dos eleitores que deixaram de escolher Lula pode ter migrado para outras candidaturas ou simplesmente não comparecido às urnas. “Parte dos 3,4 milhões que ele perdeu em relação a 2022 pode não ter aderido ao bolsonarismo, mas foi para outras opções ou ficou em casa, e pode voltar agora que a escolha é binária.”

Sendretti avalia ainda que a rejeição deverá ter papel central na disputa. “Flávio larga na frente, é verdade, mas Lula tem caminho se transformar o segundo turno em um plebiscito sobre a volta da família Bolsonaro ao poder. É um segundo turno sobre rejeições.”

Mais da metade da queda de Lula veio do Sudeste

Em artigo publicado pela ReDem após o primeiro turno, Vasconcellos analisou a distribuição regional das mudanças entre 2022 e 2026.

Flávio recebeu 5,03 milhões de votos a mais do que Jair Bolsonaro havia obtido no primeiro turno de 2022 e superou o desempenho do pai nas cinco regiões. Mais de 60% desse crescimento ficou concentrado no Nordeste e no Sudeste.

O Nordeste respondeu por 1,61 milhão de votos adicionais, ou 32% do avanço nacional. Flávio chegou a 10,40 milhões de votos na região, equivalentes a 30,85% dos válidos. Segundo Vasconcellos, foi a primeira vez que o bolsonarismo rompeu a marca dos 30% no Nordeste em um primeiro turno presidencial.

No Sudeste, Flávio recebeu 24,90 milhões de votos, 1,43 milhão a mais do que Jair Bolsonaro em 2022, e alcançou 51,36% dos válidos.

Foi também no Sudeste que se concentrou 53,25% da redução nacional de Lula. O presidente recebeu 1,80 milhão de votos a menos na região e passou de 42,63% dos válidos em 2022 para 39,68% agora. Somado ao Sul, onde a redução foi de aproximadamente 973 mil votos, o eixo Centro-Sul respondeu por 82% da queda.

Recuo foi maior nas cidades pequenas

Os números levantados nas redes sociais pelo pesquisador Marco Antonio Faganello, do Centro de Estudos de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getulio Vargas (FGV Cepesp), acrescentam outra dimensão ao resultado.

Ao cruzar os dados eleitorais com informações do Censo de 2022 e do PIB municipal, Faganello encontrou redução da participação de Lula nos votos válidos em 98% dos municípios analisados.

A intensidade variou conforme o tamanho das cidades. Nos municípios com até 5 mil habitantes, Lula perdeu 7,2 pontos percentuais em relação a 2022. A queda diminui progressivamente até chegar a 1,1 ponto nas cidades acima de 500 mil moradores. Nas capitais, ficou em 0,6 ponto.

Regionalmente, as maiores retrações proporcionais apareceram no Sul, com 5,5 pontos percentuais, e no Centro-Oeste, com 5,2 pontos.

Os dois levantamentos revelam recortes complementares: proporcionalmente, Lula recuou mais nas pequenas cidades, no Sul e no Centro-Oeste; em números absolutos, o Sudeste teve o maior peso na queda nacional.

Faganello identificou ainda uma associação entre o recuo e o peso da agropecuária nas economias municipais. Nas cidades em que o setor representa mais da metade da economia local, a queda típica chegou a 8,8 pontos percentuais. Onde a agropecuária responde por menos de 5% da economia, ficou em 3,9 pontos.

O pesquisador ressalta que os dados mostram uma associação estatística, e não permitem, sozinhos, estabelecer uma relação de causa e efeito.

Lula preserva votos no Nordeste, mas Flávio cresce

O Nordeste apresenta uma dinâmica diferente. Lula passou de aproximadamente 21,7 milhões de votos em 2022 para 21,5 milhões agora, uma redução de cerca de 259 mil. Flávio, por outro lado, recebeu 1,61 milhão a mais na região do que Jair Bolsonaro havia obtido no primeiro turno de 2022.

Lula terminou com 63,77% dos votos válidos no Nordeste, contra 30,85% de Flávio. A vantagem continua ampla, mas diminuiu em relação à eleição passada.

O resultado mostra uma dinâmica diferente daquela registrada no Centro-Sul: no Nordeste, Lula manteve praticamente o mesmo volume de votos, enquanto o crescimento do adversário reduziu sua margem.

Faganello também analisou a hipótese de a abstenção explicar o recuo nacional. Na comparação municipal feita pelo pesquisador, locais onde a abstenção aumentou não apresentaram perda adicional de Lula em relação àqueles onde ela diminuiu.

A cientista política Mayra Goulart avalia que outro movimento ajuda a compreender o resultado: a capacidade do bolsonarismo de concentrar o eleitorado da direita na reta final.

“Foi uma surpresa para nós, da academia, para a mídia e para os institutos de pesquisa essa avalanche de extrema direita que o Brasil vive”, afirmou Goulart.

Para ela, parte da dificuldade de antecipar esse movimento está na forma como esse eleitorado se informa, em ambientes que descreve como “bolhas de dissonância cognitiva” que retroalimentam determinadas visões da realidade.

“O bolsonarismo atualmente tem hegemonia nessa extrema direita e consegue, na reta final, mostrar essa hegemonia. Dentro do campo da direita, sobra muito pouco sem ser bolsonarista”, afirmou.

Diferença mobiliza busca por eleitores

A distância de pouco mais de 2,2 milhões de votos já começou a mobilizar iniciativas voltadas à disputa do segundo turno.

Uma delas é a plataforma gratuita Onde dá pra conversar, criada a partir dos resultados públicos do TSE seção por seção. A ferramenta permite localizar regiões com maior concentração de eleitores que votaram em branco, anularam, não compareceram ou escolheram candidatos que ficaram fora da disputa entre Lula e Flávio, além de reunir orientações para conversas com diferentes grupos de eleitores.

Em 2022, Lula entrou no segundo turno 6,19 milhões de votos à frente e Bolsonaro conseguiu reduzir a distância em mais de 4 milhões. Agora, a posição se inverteu: Lula começa a segunda etapa 2,23 milhões atrás.

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