PL cresce de 98 para 121 deputados e avança sobre Centrão no Congresso

No Senado, partido conquista 19 das 54 vagas em disputa e terá a maior bancada de uma legenda desde a Constituição de 1988
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Por Cleber Lourenço

O avanço da extrema direita nas eleições deste domingo (4) redesenhou a distribuição de forças no Congresso e tirou espaço de partidos do Centrão e da direita tradicional. O PL elegeu 121 deputados federais, 23 a mais do que em 2022, e terá 28 senadores a partir de 2027. No sentido contrário, União Brasil, PP e MDB encolheram na Câmara, enquanto o PSD sofreu uma queda expressiva no Senado.

Na Câmara, União Brasil e PP, hoje reunidos na Federação União Progressista, haviam elegido juntos 106 deputados em 2022 e agora ficarão com 87, redução de 19 cadeiras. O MDB caiu de 42 para 36. PSD e Republicanos permaneceram praticamente estáveis, passando de 42 para 43 e de 40 para 41 deputados, respectivamente.

Somados, União/PP, PSD, MDB e Republicanos haviam elegido 230 deputados há quatro anos e agora terão 207, uma redução de 23 cadeiras. No mesmo período, o PL saltou de 99 para 121, ganho de 22. Incluído o PSDB/Cidadania, que caiu de 18 para 11, partidos do centro e da direita tradicional perderam 30 cadeiras, enquanto PL e Novo ganharam 29.

Para a cientista política Lilian Sendretti, doutora pela USP e pesquisadora do Cebrap, porém, o movimento não deve ser interpretado simplesmente como uma derrota de um campo político para outro. Centrão e extrema direita já vinham se aproximando a ponto de operar conjuntamente em algumas das principais disputas da atual legislatura.

“O próprio PL era um partido típico do Centrão até receber Bolsonaro em 2021. O PP é presidido por Ciro Nogueira, que foi chefe da Casa Civil de Bolsonaro, o Republicanos abriga Tarcísio de Freitas, e Caiado, candidato do PSD, defendeu anistia ampla, geral e irrestrita para os condenados do 8 de Janeiro. Ao votar com o bolsonarismo na anistia e contra o governo, esses passaram a funcionar como linha auxiliar da extrema direita”, afirma.

Na avaliação de Sendretti, as urnas redistribuíram poder dentro desse campo em favor de quem representa abertamente a agenda da extrema direita. Apesar das perdas de alguns partidos, o conjunto continuará com enorme peso: PL, União Progressista e Republicanos somarão cerca de 250 deputados, próximos dos 257 necessários para a maioria absoluta da Câmara, sem contar PSD e MDB, que possuem alas alinhadas à direita.

“O Centrão normalizou o bolsonarismo e agora está pagando o preço de ser absorvido por ele”, resume.

PL quebra recorde no Senado

No Senado, a expansão do PL foi ainda mais expressiva. O partido conquistou 19 das 54 cadeiras disputadas neste domingo, 35,2% das vagas em jogo. Com os parlamentares que ainda têm mandato, começará 2027 com 28 dos 81 senadores. O PT terá nove e o MDB, oito.

Nenhuma legenda havia conseguido eleger 19 senadores em uma única eleição desde a Constituição de 1988. A bancada de 28 integrantes também será a maior de um partido no início de uma legislatura nesse período, superando os 27 senadores que o então PMDB tinha em 1999.

O PSD aparece no extremo oposto. A legenda iniciou a atual legislatura com 15 senadores e chegará à próxima com apenas cinco. Em alguns estados, a perda de espaço ocorreu diretamente para candidatos ligados ao bolsonarismo. Em Santa Catarina, Esperidião Amin (PP-SC) não conseguiu a reeleição, enquanto as duas vagas foram conquistadas por Carol de Toni (PL-SC) e Carlos Bolsonaro (PL-SC).

No Mato Grosso, Carlos Fávaro (PSD-MT) perdeu a tentativa de permanecer no Senado enquanto Zé Medeiros (PL-MT) conquistou uma das vagas. Em Goiás, Vanderlan Cardoso (PSD-GO) ficou sem mandato e Gustavo Gayer (PL-GO) foi eleito. Em Minas Gerais, Carlos Viana (Podemos-MG) perdeu a cadeira enquanto Domingos Sávio (PL-MG) chegou ao Senado.

A cientista política Mayra Goulart, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), avalia que o resultado consolidou a predominância do bolsonarismo dentro da direita e ajuda a explicar por que a dimensão do avanço surpreendeu analistas e institutos de pesquisa.

“Foi uma surpresa para nós, da academia, para a mídia e para os institutos de pesquisa essa avalanche de extrema direita que o Brasil vive. A gente não consegue capturar as preferências desse eleitor de extrema direita porque ele se informa por bolhas de dissonância cognitiva que sempre retroalimentam essa visão distorcida da realidade, onde não chegam as investigações de corrupção, onde não chegam as evidências científicas”, afirma.

Para Goulart, o resultado mostra o pouco espaço que restou para forças de direita desvinculadas do bolsonarismo. “O bolsonarismo atualmente tem hegemonia nessa extrema direita e consegue, na reta final, mostrar essa hegemonia. Dentro do campo da direita, sobra muito pouco sem ser bolsonarista. E a esquerda está realmente muito do lado de fora disso, é muito pequena”, diz.

Centrão deu maioria para anistia avançar

A aproximação apontada pelas duas pesquisadoras pode ser medida nas votações da atual legislatura. Em setembro de 2025, a Câmara aprovou por 311 votos a 163 a urgência do projeto da anistia, permitindo que a proposta avançasse diretamente ao plenário. O PL forneceu 85 votos favoráveis, muito abaixo dos 257 necessários para aprovar a urgência.

A maior contribuição veio de partidos do Centrão. União Brasil deu 49 votos; PP, 43; Republicanos, 40; PSD, 28; e MDB, 21. Juntas, as cinco legendas forneceram 181 dos 311 votos favoráveis, o equivalente a 58% da maioria formada para acelerar a proposta.

O texto foi posteriormente modificado e deixou de prever a anistia ampla originalmente defendida pelo bolsonarismo, passando a reduzir penas. A aliança parlamentar, porém, permaneceu. Em dezembro de 2025, a Câmara aprovou a proposta por 291 votos a 148. Depois que Lula vetou integralmente o projeto, o Congresso derrubou o veto em abril deste ano, por 318 votos a 144 na Câmara e 49 a 24 no Senado.

A convergência também apareceu em votações de interesse direto do governo. Em junho de 2025, a Câmara derrubou os decretos que alteravam as alíquotas do IOF por 383 votos a 98. Entre os deputados que participaram da votação, 100% dos integrantes do PP votaram contra o governo, assim como 97% do União Brasil, 95% do Republicanos e 93% do MDB.

Os resultados deste domingo mudaram a distribuição de poder dentro desse conjunto de partidos. Na Câmara, o PL ganhou 22 cadeiras enquanto União Brasil e PP perderam 19. No Senado, o partido chegará a 28 representantes enquanto o PSD, que iniciou a atual legislatura com 15, terá cinco.

A extrema direita, portanto, chegará à próxima legislatura menos dependente dos partidos que deram os votos necessários para suas principais ofensivas no atual Congresso. Ao mesmo tempo, a soma de PL, União Progressista e Republicanos deixará esse campo a poucos votos da maioria absoluta na Câmara, reforçando a influência de uma agenda que o Centrão ajudou a transformar em majoritária nos últimos anos.

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