ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Por Ana Gabriela Oliveira Lima

(Folhapress) – A Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, veiculou nas redes sociais que opera entre julho e setembro de 2026 ao menos 1.613 anúncios políticos irregulares no Brasil. É o que aponta levantamento do NetLab (Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro).

O gasto com os anúncios, de R$ 2 milhões, foi similar ao de campanhas de políticos como Fernando Haddad (PT), que gastou R$ 2,4 milhões entre 5 de julho e 3 de outubro com anúncios na Meta sobre a campanha ao Governo de São Paulo.

A propaganda estrangeira foi veiculada sobretudo por páginas apócrifas e com fonte pagadora nos Estados Unidos, origem de 98,1% do total de anúncios que informaram a localização.

As peças publicitárias descumprem uma série de regras eleitorais, que não autorizam publicidade vinda de fonte estrangeira nem o impulsionamento de anúncios políticos por atores diferentes de candidatos, partidos, federações e coligações.

Parte dos anúncios veiculou propaganda negativa contra postulantes, cujo impulsionamento é proibido por lei. Também foram encontrados materiais sem o rótulo de “propaganda eleitoral” e sem a informação da fonte pagadora, o que é vetado pela legislação.

Para chegar aos anúncios, foi feita a coleta na biblioteca da Meta a partir de termos relacionados aos candidatos e às eleições. Foram considerados aqueles com pagamento em moeda diferente do real.
Para os pesquisadores, os dados indicam a circulação de peças publicitárias visando a incidir sobre a disputa eleitoral brasileira, e a empresa só agiu para restringir o conteúdo ilegal após lucrar com ele.

As 1.613 peças político-eleitorais identificadas pela equipe foram impulsionadas por 187 anunciantes, totalizando o gasto de R$ 2 milhões, valor referente à conversão das moedas estrangeiras com base nas cotações de 1º de outubro de 2026.

Quase a totalidade, 99,5%, foi paga em dólar americano. As peças tiveram 171,1 milhões de impressões (número de vezes em que um anúncio foi exibido em telas), e 70 candidatos foram mencionados.

O levantamento considerou campanhas veiculadas inicialmente sem a classificação de “assunto político” e depois recategorizadas ou retiradas de circulação. Com isso, pode haver muito mais anúncios irregulares que os pesquisadores não conseguiram acessar. Da mesma forma, o valor arrecadado pela empresa pode estar abaixo do valor real com este tipo de publicidade.

A cifra de R$ 2 milhões vinda do exterior colocaria a categoria, se fosse um candidato, na 11ª colocação no ranking dos maiores investidores em publicidade política nas plataformas da Meta durante o período analisado.

Nessa classificação, Haddad fica em sexto lugar, com R$ 2,4 milhões, antecedido por Tarcísio de Freitas, com R$ 3 milhões. Encabeçam a lista os presidenciáveis Lula (PT), com R$ 9,4 milhões, e Flávio Bolsonaro (PL), com R$ 6,8 milhões.

“É escandaloso que a Meta ganhe R$ 2 milhões veiculando anúncio absolutamente ilegal durante as eleições brasileiras. Isso aponta falhas sistêmicas problemáticas e que podem afetar o pleito”, afirma Marie Santini, diretora do Netlab UFRJ.

A principal fonte pagadora identificada foi a Corporativo Lam, LCC, responsável por 97,3% dos anúncios com identificação do pagador, 1.076 campanhas em números absolutos. A pesquisa não aponta a quem esta fonte pagadora está vinculada, mas identificou que ela promoveu ou atacou “diferentes candidatos, muitas vezes de forma contraditória, dificultando a compreensão dos objetivos e das estratégias políticas dessas campanhas”.

Segundo o levantamento, a Corporativo Lam pode ter investido, sozinha, até R$ 1,6 milhão em propaganda eleitoral nas plataformas da Meta, o maior volume entre todas as fontes pagadoras identificadas.

Na opinião de especialistas consultados pela reportagem, como os anúncios foram veiculados e depois recategorizados, a empresa lucrou com ilícitos que podem impactar diretamente o processo eleitoral brasileiro “sem oferecer informações suficientes para identificar os interesses políticos envolvidos”.

Em nota à reportagem, a Meta afirma que “como o próprio estudo reconhece, os anúncios analisados foram identificados e posteriormente recategorizados ou, quando aplicável, retirados de circulação por violarem nossas políticas”.

“Além disso, o estudo engloba anúncios veiculados a partir de julho, antes do período oficial de campanha. Nosso processo de análise possui diversas camadas de revisão e detecção, antes e durante a veiculação.”

Para os pesquisadores, porém, a correção depois da veiculação evidencia uma “deficiência sistêmica da governança de publicidade da Meta, baseada em um controle reativo do conteúdo impulsionado, que busca combatê-lo apenas após sua veiculação, sem mecanismos robustos de verificação e aprovação prévia, como a empresa afirma oferecer”.

“Para ter noção do nível do problema, teria que haver transparência da totalidade de publicidade de anúncio que acontece na Meta, seja marcado como político ou não. Porque eu só consigo ver o que a plataforma diz que é político”, explica Marie Santini. “A gente só vai ter condições de entender o tamanho desse problema se houver transparência total da publicidade que circula na Meta.”

Carregar Comentários
Assine nossa newsletter
Receba nossos informativos diretamente em seu e-mail