O desejo pelo esforço

Sustentar um argumento diante de alguém que leu o mesmo livro e discorda de você é uma experiência que nenhuma métrica captura
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A palavra do ano de 2026, segundo o Dictionary.com, é maxxing. O termo vem de maximizar, uma obsessão contemporânea por extrair o máximo resultado de qualquer atividade. O termo é usado como um sufixo na linguagem da internet,  onde se fala em sleepmaxxing (otimizar o sono) e looksmaxxing (uma perseguição por padrões de beleza inatingíveis). Segundo a BBC, em agosto a presença do termo na mídia digital chegou a quase dezenove vezes a média mensal de 2025. Tudo numa lógica de desempenho e resultados imediatos.

Enquanto isso, uma das disciplinas mais disputadas pelos calouros de Harvard, pede o oposto de atalhos e otimização. A cadeira Humanities 10 exige ler cerca de um livro denso por semana, escrever ensaios, presença obrigatória e nenhum dispositivo digital em sala. O currículo vai de Homero ao Ulisses, de James Joyce, passando por Dante, Montaigne e James Baldwin. Segundo reportagem do Wall Street Journal, o interesse na aula cresceram 40% este ano.

O centro da aula é o debate. Uma ex-aluna diz que os colegas cobram uns dos outros a leitura dos livro, porque alguém despreparado diminui a qualidade da conversa para todos. O professor David Elmer evita atribuir o interesse diretamente à ascensão da inteligência artificial e uma turma de apenas 90 alunos não serve como prova de mudança de comportamento geracional.

Mesmo assim, é um indicativo e chama atenção uma disciplina ser cobiçada justamente por exigir o esforço que as ferramentas de IA prometem economizar. No episódio 388 do RESUMIDO, comentei o caso do pró-reitor de Dartmouth que deixou o cargo depois que seus textos foram classificados como escritos por IA, um sinal de como as regras sobre esforço intelectual seguem confusas até para quem deveria defini-las.

O apelo da Hum 10 está no atrito. Sustentar um argumento diante de alguém que leu o mesmo livro e discorda de você é uma experiência que nenhuma métrica captura. A cultura da otimização vende o atalho como ganho e, felizmente, para um número crescente de pessoas esse mesmos atalho começaram a parecer uma perda.

O esforço, que a tecnologia trata como algo a ser eliminado, pode voltar a ser buscado exatamente pela dificuldade que exige.

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