Por Bernardo Cotrim
A rejeição da indicação de Messias ao Supremo Tribunal Federal é um marco histórico — a primeira vez desde 1894 que um nome indicado ao STF é barrado. Regida pelo presidente da casa, David Alcolumbre (União-AP), a votação no Senado é um gesto político carregado de significado: trata-se de uma declaração aberta de guerra ao governo e ao STF.
A adesão de partidos que, em tese, compõem a base governista foi decisiva para o desfecho. Senadores contemplados com cargos, verbas e espaços na máquina pública votaram contra o Planalto. Em tom de “previsão descompromissada”, Alcolumbre comentou com o líder do governo, Jaques Wagner (PT-BA), antes do início da votação: “Acho que (a derrota) vai ser por 8 (votos)”. O recado foi dado.
Há um componente de retaliação evidente. Os episódios de enfrentamento entre Executivo e Congresso (que responsabilizou o governo Lula pela campanha “Congresso inimigo do povo”), somados ao escândalo do Caso Master, em que a lama sobrou para praticamente todas as lideranças da direita brasileira, e às operações da PF contra os esquemas de lavagem de dinheiro do crime organizado, funcionaram como combustível para a crise e prepararam o terreno para o confronto aberto.
O movimento do Senado também deve ser lido como enfrentamento ao STF. Várias intervenções de senadores deixaram explícitas as críticas ao “STF sem controle”, refutando a ação do Supremo no enfrentamento às emendas do orçamento secreto e no processo da tentativa de golpe de Estado e usando a sabatina de Messias apenas como escada para os ataques.
Sob a batuta de suas principais lideranças, a coalizão de ocasião formada entre o centrão e a extrema direita deixou clara sua disposição: quer o governo de joelhos e o STF na parede, para que nem um, nem outro atrapalhem seus interesses.
A possível derrubada dos vetos presidenciais ao PL da Dosimetria aparece como continuidade direta da derrota. Se confirmada, a escalada do conflito tende a se intensificar, transformando a crise em um processo mais profundo.
Vale observar o comportamento das lideranças de direita que mantém vários cargos indicados no governo. Uma vez retaliados pela traição, vão bancar o enfrentamento, reorganizando-se em torno de candidaturas como a de Flávio Bolsonaro ou de Ronaldo Caiado, ou darão um passo atrás buscando distensionar a relação com o Planalto?
As opiniões apressadas decretando o “início do fim” do governo que começam a pipocar na mídia devem ser enfaticamente refutadas, por não passarem de palavra de ordem de luta política fantasiada de análise.. O governo ainda dispõe de instrumentos institucionais, políticos e comunicacionais para enfrentar a crise e se reposicionar.
A própria derrubada dos vetos ao PL da Dosimetria pode servir de tábua de salvação para o reposicionamento do governo. Ela dá muito mais nitidez para o enfrentamento político do que uma indicação ao STF, pois reabre o debate sobre a tentativa de golpe de Estado protagonizada pelo bolsonarismo. Além disso, a possibilidade de condenados por outros crimes se beneficiarem torna a iniciativa ainda mais controversa, dando margem para a retomada de campanhas como “Congresso inimigo do povo” e a exploração, pelo governo, do potencial antipopular da anistia aos golpistas.
Tem muita água para rolar até outubro. É hora de fugir de diagnósticos apressados e “torcedores” e observar com muita atenção as cenas dos próximos capítulos.