Por Cleber Lourenço
Documentos do inquérito da Polícia Civil obtidos pelo ICL Notícias mostram que empresas contratadas para executar parte do projeto de Wi-Fi comunitário da Prefeitura de São Paulo, ligado à produtora do filme Dark Horse, passaram por mudanças societárias, alterações de objeto social e apresentavam perfis empresariais que chamaram a atenção dos investigadores. Juntas, as empresas reúnem cerca de R$ 23,6 milhões em contratos firmados pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade responsável pela execução do programa.
A investigação apura suspeitas de fraude contratual, frustração de licitação e possível emprego irregular de verbas públicas relacionadas ao contrato firmado entre o ICB e a administração municipal.
Entre as empresas que aparecem nos autos está a Favela Conectada, contratada por R$ 12 milhões para atuar na instalação de pontos de Wi-Fi nas zonas sul e oeste da capital paulista. Segundo relatório incorporado ao inquérito, a empresa foi responsável por serviços de “instalações complementares e expansão de rede”, além de atividades de monitoramento e manutenção da infraestrutura instalada.
Empresa mudou nome, capital e objeto social
Um dos pontos destacados pelos investigadores envolve a trajetória societária da Favela Conectada.
Documentos da Junta Comercial anexados ao inquérito mostram que, em setembro de 2024, a empresa alterou seu nome para Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., elevou seu capital social para R$ 500 mil e ampliou seu objeto social para incluir atividades ligadas à manutenção de redes de telecomunicações, provedores de acesso às redes de comunicação, aluguel de equipamentos e consultoria em tecnologia da informação.
Os mesmos registros mostram que a empresa foi reenquadrada de microempresa para empresa de pequeno porte. Menos de um ano depois, em agosto de 2025, voltou a alterar sua estrutura e passou a se chamar Urban Connect Serviços e Tecnologia Ltda., registrando ainda mudanças societárias perante a Junta Comercial.
Os documentos analisados pela Polícia Civil também indicam que a empresa estava sediada em um imóvel residencial quando participou da execução do projeto.
As alterações não configuram irregularidade por si só. Ainda assim, passaram a integrar o conjunto de informações analisadas pelos investigadores sobre as empresas contratadas para executar parte do programa financiado com recursos públicos.
Contratada para gestão técnica tinha atividade principal de apoio administrativo
Outra empresa que aparece nos autos é a FastFuture Tecnologias Emergentes, responsável por contrato superior a R$ 3 milhões.
Consulta cadastral anexada ao inquérito mostra que sua atividade econômica principal registrada na Receita Federal era “serviços combinados de escritório e apoio administrativo”. Embora possuísse atividades secundárias ligadas à tecnologia da informação, hospedagem de dados e suporte técnico, o CNAE principal da empresa não estava relacionado diretamente à implantação ou operação de redes de telecomunicações.
Segundo documentos incorporados ao procedimento, a empresa foi representada por Débora Feldman. O inquérito registra que ela é companheira de André Feldman, diretor da Complexys, outra contratada pelo Instituto Conhecer Brasil.
Uma nota fiscal anexada aos autos descreve os serviços prestados pela FastFuture como “gestão técnica da operação”, incluindo atividades de verificação e análise dos equipamentos utilizados no projeto.
Os investigadores também analisam contratos firmados com a Complexys.
A empresa recebeu R$ 8,6 milhões do Instituto Conhecer Brasil. Somados aos pouco mais de R$ 3 milhões destinados à FastFuture, os contratos vinculados ao casal André e Débora Feldman alcançam quase R$ 12 milhões.
Os documentos apontam que as duas empresas prestavam serviços relacionados à gestão técnica da operação e monitoramento dos equipamentos utilizados no programa de conectividade.
Empresas não foram localizadas
A Urban Connect Serviços e Tecnologia Ltda., atual denominação da antiga Favela Conectada e a empresa FastFuture não foram localizadas pela reportagem.
Já a UltraIP foi procurada para esclarecer sua participação na instalação dos pontos de internet e questões relacionadas à execução do projeto. Até o fechamento desta reportagem, a empresa não havia respondido aos questionamentos encaminhados.
O programa de Wi-Fi comunitário foi firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Ferreira da Gama, produtora executiva do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Até o momento, não há denúncia formal apresentada contra os envolvidos. O inquérito segue em andamento.
Até o momento, não há denúncia formal apresentada contra os envolvidos. O inquérito segue em andamento e busca esclarecer se as subcontratações seguiram critérios compatíveis com a execução do projeto, se os serviços foram efetivamente prestados e se houve regularidade na aplicação dos recursos públicos destinados ao programa.